Como o Senado
saiu das urnas como peça decisiva para impedir o tapetão e começar a desmontar
o estado de exceção.
A primeira impressão do resultado é clara:
tivemos uma vitória acachapante da direita nas eleições brasileiras de 4 de
outubro.
Flávio terminou o primeiro turno à frente de
Lula, como eu havia adiantado, mas ainda sem votos suficientes para encerrar a
disputa já no primeiro turno.
Talvez, se tivesse havido unidade completa da
direita, a eleição presidencial pudesse ter sido liquidada no domingo.
Outros
candidatos, porém, não abriram mão de suas candidaturas para apoiar Flávio.
Ainda assim, o recado das urnas foi muito
forte.
Quando olhamos para os estados, para o Senado
e para a Câmara dos Deputados, vemos um crescimento significativo do PL e da
direita.
O partido de Jair Bolsonaro, que segue em prisão domiciliar, em prisão
política, sai muito fortalecido.
E quem foi votado agora foi seu filho.
Isso aconteceu mesmo com Lula usando todas as
manobras possíveis para tentar se manter de pé: aumento do Bolsa Família,
proibição das bets às vésperas do primeiro turno, intervenções judiciais,
mudança nas regras do debate da Globo e todo tipo de movimentação para
favorecer sua candidatura até o último minuto.
Mesmo assim, Lula perdeu no primeiro turno, e
perdeu por cerca de dois pontos percentuais.
Mais uma vez, as pesquisas erraram a favor da
esquerda.
Houve algo em torno de sete pontos de erro em relação a Flávio.
E,
mais uma vez, a urna mostrou um país muito diferente daquele vendido pela
militância de redação.
Tivemos uma onda de direita varrendo o Brasil.
O Nordeste ainda permanece como a principal resistência eleitoral da esquerda,
mas até lá houve surpresas importantes, como no Maranhão, com a eleição de uma
cadeira para o Novo no Senado.
O Novo, aliás, deve sair com três senadores.
O PL deve ficar com algo em torno de 28
senadores.
Os números ainda precisam ser confirmados, mas esse parece ser o
tamanho da bancada.
E, somando os candidatos que disseram publicamente que
votariam pelo impeachment de ministros do Supremo, a direita chega perto
daquele número mágico: 54, 55 votos.
É o número necessário para condenar ministro
do Supremo.
E isso muda absolutamente tudo.
O que essas eleições representam?
Representam um rechaço ao establishment que
impôs ao Brasil, nos últimos anos, um verdadeiro estado de exceção, de censura
e de perseguição política contra a direita.
Lembrem-se
de Barroso dizendo: “nós
derrotamos o bolsonarismo”.
A expectativa era simples: perseguir,
censurar, prender lideranças, tirar Bolsonaro do jogo e, com isso, desmantelar
o chamado bolsonarismo.
Não
aconteceu. Muito pelo contrário!
Temos
uma esquerda ainda dependente da figura cada vez mais desgastada de Lula,
provavelmente em sua última eleição presidencial.
E temos um voto de rejeição
muito claro ao sistema de repressão que tomou conta do Brasil.
Na
minha leitura, o principal cabo eleitoral de Flávio foi o próprio Supremo.
Aquela
sessão, algumas semanas atrás, tentando blindar Moraes de investigações, deixou
evidente demais o nível de intervenção, inclusive nas eleições.
Muita gente que
talvez não fosse votar por entusiasmo acabou votando por protesto.
Foi
um voto contra o abuso, a censura, a perseguição política, a transformação da
toga em comitê de campanha.
Também vimos lideranças jovens da direita com
votações expressivas
Nikolas teve mais de três milhões de
votos em Minas.
Pavanato teve votação muito forte em São Paulo. Candidatos de
direita venceram ou chegaram muito perto de vencer disputas importantes,
enquanto as pesquisas erraram novamente em estados decisivos.
E
foi delicioso ver o desespero da LulaNews.
As
apresentadoras da GloboNews, militantes petistas há muito tempo, ficaram em
choque com o resultado.
Um militante de redação chegou a dizer que o Brasil
poderia ser colocado na lista de países controlados pela extrema direita depois
desse processo eleitoral.
É
uma delícia ver esse pessoal em desespero, mas é preciso manter a cabeça fria.
O
resultado foi muito melhor do que o esperado, mas ainda é apenas o primeiro
passo.
A vitória de Flávio precisa ser confirmada no segundo turno.
E, até lá,
eles ainda vão tentar todo tipo de jogo sujo.
A
preocupação agora é o nível de intervenção que poderemos ter entre o primeiro e
o segundo turno. Há, sim, a possibilidade de tentarem construir uma narrativa
de tapetão.
Ontem
mesmo, o diretor da Polícia Federal apareceu com uma história de investigar
“interferência externa” por causa de uma matéria publicada em jornal inglês
sobre recursos destinados a grupos que combatem a censura e a perseguição
judicial no Brasil.
Como se isso pudesse mudar uma eleição.
A
narrativa já está na mesa e há ministros trabalhando essa narrativa.
O
ponto é que, com esse resultado nas urnas, especialmente com a eleição para o
Congresso, para a Câmara e para o Senado, fica muito mais difícil imaginar que
eles tenham força para impor uma intervenção capaz de mudar o resultado.
Não
estou dizendo que não tenham vontade.
Eles têm.
Não
estou dizendo que não vão tentar. Podem tentar.
Mas
força para impor um ato desse tipo, depois de uma onda de direita no Congresso
e de um Senado mais disposto a enfrentar o Supremo, é outra conversa.
E é
por isso que a prioridade precisa ficar muito clara.
A
medida número um do próximo ciclo político deve ser acabar com a perseguição
política, com a censura e com esse verdadeiro estado de exceção no Brasil.
Os
presos políticos precisam ser soltos.
Jair Bolsonaro precisa ser solto. Essas
penas precisam ser anuladas.
O que tivemos no Brasil nos últimos anos foi um
regime de perseguição política imposto de cima para baixo, com verniz jurídico,
cobertura da imprensa e cumplicidade de boa parte do establishment.
Esse regime precisa acabar.
E aqui virá a tentação
dos acordos
A tentação de “baixar o tom”, de “não
ser radical”, de “olhar para frente”.
Não
existe acordo aceitável sem acabar com a perseguição.
O
primeiro passo é anular as condenações políticas.
O segundo é reformar o
Supremo.
Há ministros que não têm condições de permanecer na Corte.
Isso ficou
óbvio demais para ser ignorado.
E o próprio Supremo precisa ser reformado para
que o Brasil volte a ter algum mínimo de normalidade institucional.
Depois
virão as avaliações mais profundas.
Mas a primeira leitura do resultado é esta:
a direita voltou muito mais forte do que o sistema esperava.
Renan
Calheiros ficou fora do Senado depois de 32 anos.
José Dirceu não conseguiu se
eleger deputado federal.
Manuela D’Ávila não entrou como senadora pelo Rio
Grande do Sul.
Randolfe Rodrigues perdeu no Amapá.
Gleisi Hoffmann, mesmo com
todo o jogo sujo que fez contra Deltan Dallagnol, ficou para trás.
Soraya
Thronicke também ficou fora.
Uma
série de pessoas que se notabilizaram pela militância a favor da perseguição
política, ou pela traição à direita, sofreu derrotas pesadas.
Isso
não resolve tudo, mas mostra que o país reagiu.
O
resultado foi melhor do que o esperado.
O Senado, que era peça fundamental,
parece encaminhado para finalmente começar a retirar o Brasil das sombras.
Ainda falta confirmar a vitória de Flávio no segundo turno.
Ainda não é hora de
desmobilizar.
Ainda há risco de jogo sujo, de narrativa de interferência e de
tentativa de tapetão.
Mas
a urna deu um recado: a direita não morreu, o bolsonarismo não foi derrotado e
o regime de censura foi rejeitado.
Se
o foco for mantido, este domingo pode ter sido o primeiro passo concreto para
acabar com o estado de exceção no Brasil.
Hoje,
no Poder &
Mercado,
sentamos à mesa para repercutir o primeiro pregão após a eleição, a composição
do Congresso e o recado das urnas.
Vamos
mergulhar nos dados para fugir das narrativas e mostrar o que realmente faz
preço no mercado.
A
eleição já mexeu com Brasília.
Agora
vai mexer com o mercado, com os juros, com a Bolsa, com o câmbio e com o seu
patrimônio.