Durante o Carnaval, uma declaração do presidente da
Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro sobre a
influenciadora Virgínia Fonseca recebeu uma curiosa retaliação.
Enquanto
Gabriel David classificou a rainha de bateria da Grande Rio como “talvez a
mulher mais midiaticamente relevante do Brasil”, internautas sugeriram outro
nome para o posto: o da pesquisadora Tatiana Lobo Coelho de Sampaio.
Tatiana é
a cabeça por trás das pesquisas sobre a polilaminina –
substância que tem mostrado resultados promissores na recuperação de movimentos
após lesões completas na medula –, e não tem perfis em redes
sociais.
Aos
59 anos, a professora de histologia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) vive uma realidade distante do
glamour das telas: sua rotina vem sendo marcada pelo toque incessante
de um telefone que não para, trazendo pedidos desesperados de quem busca, nela,
a cura para a paralisia.
Mãe
de dois filhos biológicos e de uma “filha agregada” – uma ex-aluna órfã
que foi acolhida na família –, a pesquisadora ganhou fama a
partir de setembro de 2025, quando foram divulgados os primeiros resultados
de sua pesquisa com a substância que vem sendo tratada de modo
informal (e de certo ponto até equivocado) como a “cura para a
paralisia”.
Criadora
da polilaminina tem ex-aluna como “filha agregada” .
Sampaio
sempre foi apaixonada pela ciência, e começou sua carreira acadêmica como
estudante no curso de Biologia na UFRJ.
A escolha se deu porque, segundo a
pesquisadora, era o caminho mais rápido para que ela se tornasse
cientista.
O caminho,
porém, não foi o mesmo traçado pelos dois filhos.
Um deles seguiu
carreira na economia, enquanto a outra se dedicou ao estudo de
Relações Internacionais.
A “filha agregada”, por ter sido aluna e
estagiária de Sampaio, é quem está mais perto de seguir o legado da
mãe: hoje ela está estudando os potenciais efeitos da polilaminina na
recuperação de pacientes com câncer de mama.
Ainda não há resultados públicos
dessa nova linha de pesquisa.
Cabeça
“de esquerda” teve medo de parceria com empresa privada .
Para
desenvolver a pesquisa, Sampaio contou com o financiamento da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e com a estrutura
da UFRJ.
A parceria com o Laboratório Cristalia, empresa privada que é a
única autorizada a produzir a polilaminina, começou com uma
certa desconfiança por parte da pesquisadora.
“Eu
tinha medo de entrar em contato. Eu sempre fui uma cabeça de esquerda, então
nunca imaginei que ia ter que fazer uma cooperação com uma empresa, porque me
parecia uma coisa meio perigosa, a princípio”, disse Sampaio em entrevista no
canal TV 247 no YouTube.
Patentes
internacionais da polilaminina foram perdidas por falta de
pagamento .
A
autorização exclusiva de fabricação é fruto da única patente
da polilaminina, registrada no Brasil junto ao Instituto Nacional da
Propriedade Industrial (INPI).
A substância chegou a ser
submetida para patenteamento na Europa, nos Estados Unidos e em um escritório
de âmbito mundial.
Todos os registros, porém, foram perdidos.
O
fato foi detalhado pela pesquisadora durante a mesma entrevista.
Segundo ela,
cortes de verbas federais realizados nos anos de 2015 e 2016 fizeram com que a
universidade não tivesse mais dinheiro para pagar aos escritórios
internacionais e manter as patentes.
Na entrevista, enquanto
dizia que os cortes no orçamento trazem esse tipo de consequências, a
pesquisadora foi subitamente interrompida pela entrevistadora Hildegard
Angel.
A colunista social e apoiadora ferrenha de Lula e do PT se apressou
em afirmar que tais cortes foram feitos durante a presidência de
Michel Temer.
“Os cortes do governo do Temer, né? 2016.
Eles queriam
mesmo inviabilizar a ciência no Brasil e fizeram isso com sucesso.
Era um
projeto claro de entregar todo o nosso conhecimento científico para utilização
estrangeira”, afirmou Angel.
Tatiana não desmentiu.
Cortes
de verbas que levaram à perda das patentes ocorreram no governo de Dilma
Rousseff .
Mas
as datas trazidas durante a entrevista não são as mesmas que aparecem nos
registros oficiais.
Apatentejunto ao World Intellectual Property Organization (WIPO), aparece
como “cessada por expiração antecipada”, o que poderia ter sido
motivado pela falta de pagamento junto ao escritório de registro.
Esse status é
de 5 de março de 2011.
NoUnitedStates Patent and Trademark Office (USPTO), a
patente aparece como “abandonada após falha em responder a uma ação
do escritório”.
O abandono foi confirmado após outra potencial falta de
pagamento. Esse status é de 5 de agosto de 2014.
Por
fim, a patente registrada no European Patent Office
(EPO) aparece como “retirada”, o que também poderia ser motivado pela
falta de pagamento do registro. Nesse caso, o status data de 11 de
dezembro de 2014.
A
reportagem entrou em contato com a UFRJ e com a Faperj questionando sobre
essa diferença nas datas citadas na entrevista com aquelas presentes nos
registros oficiais – que mostram que os cortes de verbas ocorreram nos governos
de Dilma Rousseff –, mas ainda não recebeu resposta.
O espaço segue aberto para
manifestação.
Pesquisadora é cautelosa
quanto à “cura da paralisia”
A
pesquisadora Tatiana Sampaio adota um tom cauteloso ao falar sobre o potencial
de curar paraplégicos com a polilaminina.
Desde a divulgação dos primeiros
resultados da pesquisa, ela frisa que o único caso de recuperação total dos
movimentos foi alcançado em um paciente que recebeu a substância menos de 24
horas após a lesão medular.
Até
mesmo o laboratório que fabrica a proteína publicou em seu perfil no Instagram um comunicado em que alerta que a eficácia do
produto deve diminuir quanto mais distante do momento da lesão for feita a
aplicação.
Casos de lesões com mais de 90 dias estão sendo alvo de estudos
experimentais em animais.
O objetivo é entender se o tratamento poderá ser
feito em humanos.
Mesmo com
essas ressalvas, Sampaio passou a conviver com pedidos reiterados de
familiares de pacientes com lesão medular para serem incluídos na
pesquisa.
Ela disse que não raro é tratada por essas famílias como “um
instrumento de Deus” para a cura.
“Eu
ouço muitas coisas, e as pessoas desesperadas pedindo ajuda, dizendo que eu sou
um instrumento divino.
Isso é muito pesado para mim, não tem um dia em que eu
não tenha uma crise de choro.
Se eu for um instrumento de Deus, eu aceito, mas
não posso ser responsabilizada por isso.
Se Deus tomou essa decisão, eu não fui
comunicada.
Então, infelizmente, eu não posso falar em nome de Deus”,
completou.
Sobre
o futuro, a pesquisadora espera que outros cientistas ampliem os estudos sobre
a polilaminina.
De sua parte, a vontade real é de se aposentar.
“Eu queria
tirar férias, não consigo me desligar. Eu queria muito parar, queria muito me
aposentar”, concluiu.
https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/quem-e-tatiana-sampaio-a-pesquisadora-brasileira-que-tenta-curar-a-paraplegia/