- Por Cléber Moletta, especial para a Gazeta do Povo 13/10/2026
Fim da escala 6x1
exigirá mudanças em equipes e horários e pode elevar custos (Foto: Dall-E/Gazeta do Povo)
Caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da
escala 6x1 seja aprovada, empresas de diferentes setores terão de reorganizar
equipes, escalas e horários para manter o funcionamento atual.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) pautou para esta quarta (14) a votação em primeiro turno da proposta, De acordo com o Regimento do Senado, depois do primeiro turno, a proposta precisa ser debatida em outras três sessões de discussão.
Só então
pode ser votada em segundo turno.
Por esse rito, a votação da PEC do fim da 6x1 ainda poderia ser concluída em outubro.
No entanto, a líder do governo no
Senado, Teresa Leitão (PT-PE), busca assinaturas de 54 senadores para acelerar
a análise da PEC por meio de um requerimento de quebra de interstício, de forma
que a votação do segundo turno possa ocorrer logo após a do primeiro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato mais votado no primeiro turno da eleição presidencial, declarou nesta terça-feira (13) que votará pelo fim da escala 6x1.
Até então ele vinha se manifestando contra o projeto.
"Eu estou rodando o Brasil.
A maioria dos
trabalhadores quer o fim da 6x1. Vou votar a favor do fim da 6x1."
Atividades que dependem de
operação contínua serão as mais afetadas
As atividades que dependem de operação contínua ou concentram a demanda em determinados dias e horários terão os maiores desafios, podendo exigir novas contratações.
Uma das consequências
diretas seria o repasse de custos ao consumidor, gerando inflação.
A proposta, já aprovada na Câmara e
atualmente em análise no Senado, propõe reduzir a jornada máxima de trabalho de
44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, e acabar com a escala 6x1,
obrigando pelo menos dois dias de folga semanal remunerada.
“O que vai acontecer? Fechar a loja um dia da semana não tem como.
As pessoas precisam do sábado para comprar.
Seria
um dia a menos de faturamento e ainda teria que contratar mais gente, mas já
estamos com dificuldades”, afirma Kátia Burko, empresária da loja de moda
feminina Scarp, em Guarapuava, no Paraná.
“Temos três vendedoras, então três dias da semana vamos ficar somente com duas.
Somente metade da semana teremos a equipe completa.
Isso vai impactar no faturamento.
Com menos gente trabalhando
na loja, vamos vender menos”, completa.
O exemplo da empresa varejista de pequeno porte ilustra a realidade de um segmento que tende a ter maior dificuldade de adaptação, incluindo lojas de shoppings.
Essas empresas já trabalham com quantidade de
funcionários bem ajustada à demanda e têm maior dificuldade de repassar ao
consumidor os custos extras com a adaptação forçada à nova escala.
“Ao colocar uma única escala na Constituição, se enrijece e obriga os setores a usar uma escala que não corresponde às necessidades de seus setores.
A adaptação a isso vai ser a parte
mais complicada”, afirma André Portela, professor da Escola de Economia de São
Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Tornar a escala de trabalho uma norma constitucional seria uma inovação brasileira, diferente do que ocorreu em outros países, aponta o especialista.
Aqueles que reduziram jornadas mantiveram
as escalas livres e respeitando as especificidades operacionais de cada
segmento.
“Os setores são muito diferentes em suas atividades, seja por razões tecnológicas ou de demanda dos consumidores.
Por exemplo, um alto-forno de uma siderúrgica funciona 24 horas, não desliga.
O varejo funciona nos finais de semana, um hospital tem escalas 12x36 em alguns setores, a agricultura tem sua sazonalidade de colheita e plantio...
Há uma
diversidade de escalas”, argumenta Portela, que é favorável a acordos e
convenções coletivas para deliberar sobre esse tema.
Fábricas terão de rever
escalas para manter a produção em períodos de maior demanda
O estudo “Redução de jornada e negociação
coletiva: caminho para soluções equilibradas”, elaborado pela Confederação
Nacional da Indústria (CNI), reforça justamente essa variabilidade entre
setores, apontando que a indústria de transformação enfrenta oscilações de
produção provocadas por sazonalidade das vendas, ciclos de pedidos, variações
cambiais, logística, estoques e paradas de manutenção.
Atualmente, para se ajustar a essa
dinâmica do setor, são utilizados o banco de horas e a compensação flexível de
jornada, sem a necessidade de contratar e demitir trabalhadores conforme a
demanda.
Conforme o estudo, com a redução para 40 horas, um dos problemas seria que o banco de horas teria de ser administrado dentro de uma janela semanal menor, reduzindo essa flexibilidade.
Ou seja, as
fábricas teriam limitações para utilizar mais horas em períodos de demanda
elevada e compensá-las com folgas em períodos de menor atividade.
É por essa variabilidade de necessidades que a entidade apontou a necessidade de separar jornada de escala.
Uma redução de jornada poderia ser
assimilada gradativamente, com ganho de produção compatível, e organizada em
escalas a partir de acordos e convenções que atendam às especificidades dos
segmentos industriais e ao bem-estar dos trabalhadores.
Essa prática, aponta o estudo, já é comum no setor.
O levantamento mostra que a indústria de transformação já tratou, em 38,5% das convenções e acordos, do tema horas extras e compensação.
Além disso,
11,2% tratam de turnos, horário noturno e mudança de horário.
Já no segmento da indústria extrativa, o desafio é diferente.
A mineração, o petróleo e o gás podem operar 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Nesses casos, o estudo aponta que reduzir a jornada
abaixo de determinado ponto técnico exigiria turnos adicionais, com custos de
recrutamento, treinamento, equipamentos de segurança e logística.
Hospitais terão que conciliar
redução da jornada com necessidade de atendimento ininterrupto
Um hospital funciona com diferentes
serviços simultâneos que demandam profissionais distintos.
Da cozinha à UTI, do administrativo ao centro de diagnóstico por
imagens, o atendimento funciona em grande parte 24 horas por dia, mas a
dinâmica de cada setor é distinta.
O certo, conforme gestores da área, é que
a redução de jornada e a mudança de escala afetam diretamente o setor.
“A matemática é simples: se reduzirmos
uma jornada de 44 para 40 horas semanais, teremos uma redução de
aproximadamente 9% nas horas disponíveis por trabalhador.
Mas essas horas não desaparecem da operação.
Para manter a
cobertura, vamos ter que reorganizar as escalas, horas extras ou novas
contratações”, disse à Gazeta do Povo
Marlon Malasa, do Grupo Vita Curitiba e sócio da HPRO Soluções em Saúde, que
faz a administração e gestão de hospitais.
A mudança não será automática e igual em
todos os hospitais e setores, lembra o gestor, pois dentro do próprio hospital
existem várias categorias, algumas delas com escalas e jornadas específicas.
“O problema maior está nas áreas assistenciais e de apoio
contínuo, como enfermagem, UTI, maternidade, centro cirúrgico, higienização,
entre outros, que precisam garantir a cobertura permanentemente”, ressalta,
indicando um desafio para a formulação de escalas se a mudança for efetivada.
O gestor também alerta para a redução da capacidade de investimento, principalmente no Sistema Único de Saúde (SUS), que já trabalha com recursos no limite.
“Se o custo aumentar sem aumento de
receita, o hospital precisa retirar dinheiro de algum lugar e isso pode
significar menos capacidade para investir em equipamentos, medicamentos,
treinamento, tecnologia e expansão dos serviços”, diz.
Agro precisará adaptar jornadas
a ciclos de produção e operações contínuas
Assim como os demais segmentos, entidades
que representam o agronegócio fizeram várias sugestões ao Congresso em relação
ao tema, mas nenhuma prosperou no texto que está em debate.
“Diversas atividades agropecuárias estão condicionadas a ciclos
biológicos, fatores climáticos e períodos sazonais de produção, o que exige
maior flexibilidade na organização das jornadas e das escalas”, aponta o estudo
“Reflexos da redução da jornada 6x1 no agronegócio”, da Federação da
Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg).
A predominância de pequenas propriedades
em diversas atividades que exigem trabalho manual é outro ponto de preocupação
do setor. Muitas não teriam condições de contratar mais funcionários para
compensar o dia extra de folga e a redução de horas trabalhadas.
A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) estimou o custo adicional em algumas atividades no estado.
A
avicultura e a suinocultura teriam custo extra estimado de R$ 1,72 bilhão por
ano, principalmente devido ao manejo biológico contínuo dos animais e às
escalas ininterruptas nas plantas frigoríficas, que operam 24 horas por dia.
O setor leiteiro exige manejo contínuo e o processamento imediato nas indústrias pode sofrer um custo extra de R$ 570 milhões.
Já os grãos, sobretudo pela concentração da demanda nos períodos de
plantio e colheita, teriam impactos de R$ 900 milhões anuais.
Empresas de serviços podem
repassar custos maiores aos consumidores
De modo geral, o setor de serviços é intensivo em mão de obra e a natureza das atividades pode exigir escalas de trabalho diversas.
Diferentes segmentos já estimam elevação de custos da hora
trabalhada e, consequentemente, do preço final ao consumidor.
A Federação Nacional das Empresas
Prestadoras de Serviços de Limpeza e Conservação (Febrac) estima que o aumento
dos custos seja superior a 20%, valor que deve ser repassado.
O serviço de segurança privada também estima esse percentual de aumento do custo, conforme previsão da Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist).
Além do
custo, a entidade já se organiza para necessidade de ajustes operacionais na
escala amplamente utilizada pelo segmento, a 12x36.
Uma nota técnica elaborada a pedido da entidade apontou que, em muitos casos, serão necessários ajustes no intervalo de descanso para a escala se adequar a nova norma.
Para um posto que precisa funcionar 24 horas por dia, são necessárias 168 horas de cobertura por semana.
Com uma jornada de 40 horas, são necessários 4,2 empregados.
Segundo a nota, se
o intervalo for de 30 minutos, a jornada passa a 40,25 horas semanais e o
documento aponta a necessidade de 5 empregados para cobrir um posto.
Redução da jornada exigirá que
supermercados ajustem equipes ao movimento das lojas
O estudo da Centu, empresa de tecnologia
voltada à gestão e montagem de escalas de trabalho, realizado com dados de oito
supermercados que têm atualmente entre 15 e 55 funcionários, mostra que a
adaptação ao fim da escala 6x1 não será simplesmente uma questão de contratar
mais pessoas.
As empresas terão de redesenhar as
escalas a partir da demanda efetiva de cada unidade, considerando como o
movimento se distribui ao longo dos dias e horários.
Foram 32 simulações realizadas. A
migração de 44 horas em 6x1 (atual) para 40 horas em 5x2, que terá que ocorrer
em 14 meses se a PEC for aprovada, produziu impactos muito diferentes: o custo
de mão de obra variou de 1,7% a 11,6%, mesmo dentro da mesma rede.
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