|
Pela primeira vez em décadas, a ditadura cubana corre risco real de cair.
E não por acaso.
O regime que
sobreviveu a onze presidentes americanos enfrenta agora um cerco econômico sem
precedentes, costurado peça por peça pelo governo Trump.
Vale lembrar
como chegamos aqui. Em janeiro, os EUA capturaram Maduro. Com a queda do
chavismo, ou podemos chamar de “domesticação” do chavismo, Trump cortou a
artéria que mantinha Havana respirando: o petróleo e o dinheiro venezuelanos.
“Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba: zero”, anunciou o presidente americano.
Na prática, foi o fim de uma simbiose que durava décadas.
Caracas bancava a ilha,
e a ilha exportava os “serviços de segurança” que mantinham os ditadores
venezuelanos no poder.
Cortada a fonte venezuelana, veio o aperto financeiro.
Em 1º de maio, Trump assinou a Ordem Executiva 14404, autorizando sanções secundárias.
Ou seja: punições contra empresas estrangeiras, não apenas americanas, que façam negócios com entidades cubanas sancionadas.
O efeito foi imediato.
A engrenagem que o regime montou para se sustentar tem nome: GAESA, o conglomerado econômico-militar que controla a maior parte da economia da ilha.
É o cofre dos
militares que governam Cuba. E foi exatamente esse cofre que Washington mirou.
Essas determinações expõem como uma ditadura comunista funciona na prática: ao invés do “povo”, ou do “proletariado” no poder, há a elite do partido que concentra todas as riquezas do país, enquanto o povo é deixado na miséria.
Quem reclama
vai preso, ou é eliminado.
O Departamento de Estado sancionou a GAESA e sua presidente-executiva. Em 4 de junho, o governo americano foi além e atingiu o ditador Miguel Díaz-Canel diretamente, junto com familiares, o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias e uma lista de entidades ligadas ao regime.
Estas não são
sanções genéricas contra “Cuba”. São sanções contra os nomes e estruturas que
sustentam a ditadura.
O resultado foi uma debandada. A mineradora canadense Sherritt, maior investimento estrangeiro na ilha, anunciou saída imediata.
As redes hoteleiras espanholas
começaram a fechar operações: só a Meliá encerrou 15 dos 34 hotéis que
administrava.
E o golpe
mais simbólico: o banco estrangeiro que processava os pagamentos rompeu com a
Fincimex, braço financeiro da GAESA, e Visa e Mastercard pararam de funcionar
em Cuba a partir de 6 de junho.
Um país
inteiro cortado dos pagamentos internacionais por cartão. Um economista cubano
resumiu o quadro à AFP: 2026 será o pior ano da história econômica de Cuba em
sete décadas.
Cuba vive sob embargo americano há mais de sessenta anos, e o regime sobreviveu a tudo, inclusive ao colapso da União Soviética.
A diferença, desta vez, é a combinação: o fim do oxigênio venezuelano somado às sanções secundárias que afugentam o capital estrangeiro.
É essa soma que torna a queda do regime uma
possibilidade concreta, não uma certeza.
E é
justamente por isso que o Descondenado Lula está furioso.
Não é casual que ele tenha chamado Marco Rubio, o secretário de Estado que arquiteta o cerco a Havana, de “latino-americano frustrado”.
Rubio é filho de cubanos que
deixaram a ilha em 1956, e Lula chegou a especular publicamente sobre sua
origem:
“Não sei se ele nasceu em Cuba,
parece que ele é filho de pessoas que nasceu [sic] em Cuba”.
A irritação
tem raiz profunda.
Vale lembrar quem é Lula nessa história. Em 1990, ele fundou o Foro de São Paulo ao lado de Fidel Castro.
O pretexto: articular a esquerda latino-americana após a queda do
Muro de Berlim.
O objetivo real era outro: recuperar na América Latina o que o socialismo havia perdido no Leste Europeu, ou seja, ditaduras brutais esquerdistas.
E o próprio Lula nunca
escondeu a ambição. Em 2013, num encontro do Foro, foi explícito: “Eu quero
debitar parte da chegada da esquerda ao poder na América Latina a essa cosita
chamada Foro de São Paulo.”
No ano
anterior, em vídeo de apoio à reeleição de Chávez, havia sido ainda mais claro:
“Quando criamos o Foro de São Paulo,
nenhum de nós imaginava que, em apenas duas décadas, chegaríamos aonde
chegamos. Naquela época, a esquerda só estava no poder em Cuba. Hoje,
governamos um grande número de países.”
Repare na primeira pessoa do plural.
Quem “governa”, na fala de Lula, não são presidentes
eleitos. É o Foro.
E a fronteira entre projeto partidário e máquina do Estado, para Lula, nunca existiu.
Em 2003, já presidente do Brasil, ele costurou o chamado Grupo de
Amigos da Venezuela, instância diplomática montada com a estrutura do Itamaraty
para socorrer Chávez, então acuado pela oposição.
Anos depois, o próprio Lula confessou a natureza da manobra: “só foi possível graças a uma ação política de companheiros.
Não era uma ação política de um Estado com outro
Estado, ou de um presidente com outro presidente.”
Leia de novo. O presidente da República admitindo, com todas as letras, que usou um instrumento da diplomacia brasileira não como política de Estado, mas como ação entre companheiros de projeto.
O aparato público a serviço da causa partidária.
E não se tratava só de retórica. O projeto tinha logística, dinheiro e operadores.
Cuba
era o coração: a ilha de Fidel não era só o farol ideológico, era o MODELO, a
prova de que uma ditadura de partido único poderia durar décadas sob o nome de
“revolução”.
A Venezuela de Chávez, por sua vez, era o cofre, além de ser a prova de conceito sobre como o modelo totalitário cubano poderia ser replicado em outros países.
Com os
petrodólares de Caracas, o projeto continental ganhou musculatura financeira.
E o que esse modelo significa na vida real está documentado.
Cuba fechou agosto de 2025 com
1.185 presos políticos, o maior número já registrado pela organização Prisoners
Defenders, que contabiliza quase 1.900 presos de consciência desde os protestos
de 11 de julho de 2021, em sua maioria cidadãos comuns que apenas foram às
ruas. Tortura, presos doentes sem tratamento, expatriação forçada como pena.
É isso que a
esquerda continental sempre chamou de “farol”.
Cuba nunca foi só um país pobre no Caribe. Por décadas, Havana exportou método: assessores de inteligência, doutrina de segurança, manuais de controle social e o saber-fazer de uma ditadura que aprendeu a sobreviver.
Foi esse know-how que blindou Chávez, sustentou Maduro e inspirou Ortega.
A ilha era a universidade
do autoritarismo continental, e o Foro, a sua rede de ex-alunos.
Veja como a engrenagem funcionava na prática. Quando Chávez disputou a reeleição em 2012, quem cuidou da campanha foram os marqueteiros brasileiros João Santana e Mônica Moura, os mesmos das vitórias de Lula em 2006 e Dilma em 2010.
Em delação
premiada homologada pela Justiça, Mônica Moura confessou ter recebido mais de
US$ 10 milhões em dinheiro vivo, entregues em malas pelo próprio Maduro, então
chanceler, “às vezes no Palácio de Miraflores”.
Tudo em caixa dois. Parte dos recursos, segundo ela, veio das empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutiérrez.
E quem fez o contato inicial entre o casal e o chavismo, segundo o depoimento, foi Lula.
“Quem me chamou para cá foi o presidente Lula”,
disse a marqueteira quando ameaçava cobrar pagamentos atrasados.
A própria Odebrecht selou a conta.
Em acordo com a Justiça americana, a construtora
admitiu ter pago cerca de US$ 98 milhões em propinas na Venezuela, seu maior
desembolso fora do Brasil.
À parte
disso, em delação ao Ministério Público Federal, Euzenando Azevedo, presidente
da Odebrecht na Venezuela, relatou ter fechado em US$ 35 milhões a contribuição
para a campanha de Maduro em 2013, em troca de prioridade em obras públicas.
Era esse o circuito: construtoras brasileiras irrigavam campanhas bolivarianas,
e os regimes bolivarianos devolviam o favor em contratos.
Em abril de 2013, com Chávez já morto, Lula gravou pessoalmente um vídeo de campanha para Maduro. “Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou”, declarou.
Não era análise de ex-presidente sobre país vizinho. Era propaganda
eleitoral de um chefe de Estado estrangeiro a serviço da continuidade do
chavismo.
O alcance do Foro, porém, ia além das urnas. Em 2003, Raúl Reyes, então porta-voz das FARC, declarou à Folha de S. Paulo que conhecera Lula num encontro do Foro de São Paulo e que o principal contato da guerrilha no Brasil era o PT.
A relação não
era informal.
As Farc frequentaram o Foro desde o encontro fundador de 1990, e a ata de 1997 já tratava a guerrilha como aliada, um "núcleo de oposição" ao imperialismo.
Só em 2002, quando os sequestros e o narcotráfico da organização
ficaram impossíveis de ignorar, é que o Foro a afastou formalmente, tarde e por
conveniência de imagem.
Quando
líderes das FARC morreram em operações do governo colombiano, o PT enviou
condolências à organização. E o governo Lula concedeu refúgio político a
Oliverio Medina, representante da guerrilha no Brasil, negando o pedido de
extradição feito por Bogotá.
Arquivos
atribuídos ao laptop de Reyes, capturado pelo Exército colombiano em março de
2008, ainda registram contatos do PT e do governo Lula com a cúpula da
guerrilha.
E não se trata de coincidência. Onde o Foro elegeu os seus, o roteiro se repetiu, porque o roteiro era o mesmo.
Na Venezuela, o chavismo transformou o país mais rico em
petróleo da região na maior catástrofe migratória do hemisfério, com milhões de
exilados e, segundo a ONU, crimes contra a humanidade cometidos pelo regime; em
novembro de 2025, o Foro Penal ainda contava 884 presos políticos.
Na
Nicarágua, Daniel Ortega, herói da revolução sandinista convertido em déspota,
prendeu sete pré-candidatos à Presidência antes da eleição de 2021, perseguiu a
Igreja Católica, baniu a imprensa e reescreveu a Constituição para se eternizar
ao lado da mulher.
Na Argentina, o kirchnerismo deixou inflação beirando 100% e uma ex-presidente condenada por corrupção em obras públicas, hoje cumprindo pena.
Na Bolívia, Evo Morales rasgou o resultado de um referendo para tentar um quarto mandato em 2019 e mergulhou o país numa crise da qual não saiu.
Chega-se pelo voto, e
depois faz-se de tudo para nunca mais sair dele. Essa é a assinatura do Foro.
E não se
pense que Lula recuou diante das evidências. Em maio de 2023, com a ditadura
venezuelana já fartamente documentada por organismos internacionais, prisões
políticas, fraudes eleitorais, torturas, deportações, milhões de exilados, ele
recebeu Maduro com tapete vermelho no Palácio do Planalto e classificou o
autoritarismo do regime como “a narrativa que se construiu contra a Venezuela,
de antidemocracia e do autoritarismo”.
Note o que essa frase revela. Para Lula, o problema da Venezuela não era a tirania.
Era a má reputação da tirania. A repressão não precisava acabar, precisava de marketing.
Foi tão longe que até Gabriel Boric, presidente de esquerda do Chile, o desautorizou em público: o que se passa na Venezuela, disse, não é construção narrativa, é uma realidade, é grave.
Quando o seu próprio campo
precisa lembrá-lo de que ditadura não é questão de imagem, fica claro qual é a
concepção de democracia do PT.
Some tudo. Cuba como modelo, Venezuela como cofre, construtoras como financiadoras, marqueteiros como operadores, guerrilhas como aliadas toleradas.
Esse é o tabuleiro que Lula passou a vida montando.
Derrubar o regime cubano não é,
portanto, apenas mais uma sanção. É desmontar a peça central de tudo isso.
Na prática, o governo Trump está desfazendo o trabalho de uma vida.
E faz isso enquanto
realinha o continente: com Maduro fora, com Havana sufocada, os EUA reorganizam
o hemisfério segundo a velha lógica de esfera de influência, agora reaquecida
pela nova guerra fria contra a China.
O Foro de São Paulo passou trinta e seis anos fomentando o socialismo totalitário no continente.
Se o regime cubano cair, cairá também o mito fundador de todo esse projeto.
E essa é a verdadeira
dimensão da fúria do Descondenado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário