Segunda-Feira | 02.03.26
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Os ataques coordenados por Estados Unidos e Israel contra o território iraniano marcam um ponto de inflexão no cenário geopolítico recente.
Não apenas pelo seu
alcance militar, mas pelo que revelam sobre a estrutura real das alianças que
vinham sendo apresentadas como contraponto ao poder ocidental.
Para compreender o momento atual, é necessário recuar ao acordo nuclear firmado em 2015.
O JCPOA foi apresentado como solução diplomática para conter o avanço nuclear iraniano.
Na prática, estabeleceu um
mecanismo temporário, com validade limitada, que não eliminava o problema —
apenas o postergava.
Ao permitir que o Irã mantivesse capacidade de
enriquecimento de urânio com restrições temporárias, e ao liberar acesso a
recursos financeiros significativos, o acordo criou condições para o
fortalecimento de um regime que já atuava como principal financiador de grupos
armados no Oriente Médio.
A consequência foi previsível.
O programa nuclear avançou, o financiamento de milícias se intensificou e a instabilidade regional aumentou.
A ruptura do acordo por Trump, em 2018, não reverteu esse processo.
Apenas expôs sua
fragilidade. Tentativas posteriores de renegociação fracassaram, enquanto o
avanço tecnológico iraniano se aproximava de níveis críticos.
O ponto de ruptura veio com a escalada de conflitos indiretos e, posteriormente, com ataques diretos.
A operação recente — a maior mobilização militar na região desde 2003 — não surge como evento isolado.
É o
resultado de uma sequência de decisões acumuladas ao longo de anos.
Mas o aspecto mais revelador não está apenas no
campo militar.
Está na reação — ou na ausência dela.
Rússia e China, frequentemente descritas como pilares de um eixo geopolítico alternativo, limitaram-se a manifestações diplomáticas.
Não houve resposta militar.
Não houve mobilização efetiva.
Não
houve qualquer sinal de disposição para sustentar o Irã em um confronto direto.
Essa ausência expõe a natureza dessas alianças.
Não se trata de um bloco coeso, baseado em compromissos de defesa mútua.
Trata-se de uma convergência de interesses circunstanciais.
Uma aliança de conveniência, não de compromisso.
Enquanto a Rússia enfrenta limitações decorrentes de
seu envolvimento em outros conflitos, a China mantém uma postura pragmática,
priorizando estabilidade econômica e acesso a recursos, evitando envolvimento
direto em confrontos de alto risco.
O resultado é o isolamento do Irã.
Internamente, o regime já enfrentava forte pressão.
Protestos em escala nacional, repressão violenta e deterioração econômica indicavam fragilidade estrutural.
A ofensiva externa apenas acelera um processo
que já estava em curso.
Nesse contexto, a estratégia adotada pelos Estados Unidos também merece atenção.
Diferentemente das intervenções do início dos anos 2000, não há indicativos de ocupação prolongada ou tentativa de reconstrução institucional direta.
A abordagem se concentra na degradação da
capacidade militar do regime e na transferência do protagonismo político para a
população local.
Essa diferença não elimina riscos.
A queda de regimes autoritários frequentemente abre espaço para instabilidade, fragmentação e disputa interna por poder.
A história
recente do Oriente Médio oferece exemplos claros desse processo.
Mas há também um risco na inação.
A consolidação de um Irã nuclear, associado a redes
de financiamento e operação de grupos armados em múltiplas regiões,
representaria uma mudança estrutural no equilíbrio global.
O momento atual, portanto, não deve ser interpretado
como um episódio isolado de escalada militar.
Ele representa o ponto de convergência de decisões
políticas acumuladas ao longo de décadas, a exposição da fragilidade de
alianças geopolíticas e a abertura de um cenário de incerteza quanto aos
desdobramentos futuros.
O eixo que se apresentava como alternativa ao poder
ocidental revela seus limites.
E o custo dessa revelação está sendo pago em tempo
real.
