Quinta-Feira | 30.04.26 |
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Naufrágio em dose dupla |
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Vetado pela maioria dos 81 senadores, Jorge
Messias, codinome Bessias, não será ministro do Supremo Tribunal Federal. Nesta quarta-feira, pela primeira vez desde
1894, o escolhido pelo presidente da República esbarrou na rejeição do Poder
Legislativo — e agora só merece um espaço na ala dos fiascos históricos de
algum museu da República. Em vez da toga que usaria por 29 anos,
continuará envergando o terno de chefe da Advocacia-Geral da União pelo menos
até dezembro. Messias fracassou, mas está fora da comissão de frente formada pela elite dos perdedores. Lá estão destaques mais vistosos, como os articuladores políticos do Planalto e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), liderados por Gilmar Mendes. Mas o grande derrotado é
Lula. Aos 82 anos, o dono do PT acha que governa o
mesmo país que, em 2010, engoliu sem engasgos um poste do porte de Dilma
Rousseff. Se transformou em sucessora uma mulher
provida de meio neurônio, decerto se perguntou, por que haveria de ser mais
cauteloso ao escolher um ministro do Supremo e o momento de submeter seu nome
ao endosso do Senado? Alheio aos sinais de perigo emitidos por
pesquisas eleitorais, ao desconforto escancarado pela imensidão de
endividados, à indignação alimentada pela prepotência dos parceiros acampados
no STF, ao envelhecimento do besteirol despejado a cada discurseira em
português indigente, Lula resolveu preencher a vaga |
A derrota de Jorge Messias, o “Bessias”, na indicação ao Supremo representa muito mais do que o fracasso de um nome.
Ela funciona como um raio X do momento político brasileiro e mostra, com nitidez, que a coalizão que sustentou a blindagem do sistema nos últimos anos está profundamente fragilizada.
Não se trata apenas de uma derrota de Lula, embora também seja
isso.
Trata-se de uma sinalização clara de que o arranjo entre PT,
Centrão e Supremo já não opera com a mesma coesão de antes.
Esse ponto é fundamental. Foi essa
coalizão que produziu a descondenação em massa, a volta de Lula à presidência e
todo o ambiente de censura, perseguição e repressão política contra a direita.
O chamado “Inquérito das Fake News”, a
criminalização de opositores, a blindagem institucional do establishment, tudo
isso nasceu da cooperação entre esses grupos.
O que a votação de Messias deixa evidente é que esse bloco
continua existindo, mas já não está pacificado.
Há um racha.
E esse racha tem a ver com disputa de poder, não com conversão
republicana.
De um lado, o PT quer aprofundar seu
projeto hegemônico e usar o Supremo como instrumento definitivo de consolidação
desse poder.
De outro, o Centrão, a velha oligarquia brasileira, percebe que
entregar poder demais ao PT e aos seus quadros ideológicos pode se voltar
contra ele próprio.
Messias no Supremo seria justamente
isso: a tomada final de mais um espaço estratégico por um soldado petista, com
histórico claro de censura, perseguição e repressão a opositores.
Sua derrota mostra que o Centrão decidiu frear esse movimento.
Não para desmontar o regime, mas para impedir que o PT passe a
controlá-lo sozinho.
Isso ajuda a explicar também o aparente
paradoxo apresentado pela imprensa: a possibilidade de Alexandre de Moraes ter
atuado, nos bastidores, contra a aprovação de Messias.
Não há aí contradição real. Moraes nunca foi um quadro orgânico
do PT.
Seu alinhamento com a esquerda radical se deu por objetivos
específicos, sobretudo na repressão à direita e na blindagem do sistema.
Mas ele é muito mais próximo da lógica
do PSDB e do Centrão do que da lógica petista.
Para esse campo, Messias no Supremo significaria fortalecer
demais a ala diretamente ligada ao PT dentro da Corte.
Logo, o resultado não é exatamente uma
vitória da direita.
É antes um rearranjo de forças dentro do establishment,
pressionado por uma insatisfação popular crescente com a censura, com a
perseguição política e com a perda de liberdade.
A pressão popular pesou, e isso ficou evidente no clima descrito
pelos próprios senadores.
Mas o objetivo da oligarquia não é
entregar o país a uma direita verdadeiramente transformadora.
O objetivo é abrir um pouco a válvula de pressão, aliviar a
escalada repressiva e preservar o controle.
Troca-se a repressão total por uma repressão administrada.
Não é
o ideal, mas é um avanço em relação ao cenário anterior.
Também ficaram claras algumas posições nesse processo.
Lideranças que se venderam como defensoras de princípios
mostraram, na prática, que operam por projeto de poder ou por cálculo tático.
E isso ajuda a separar aliados reais de aliados circunstanciais.
No fim das contas, o que essa derrota
mostra é que os ventos políticos estão mudando, mas ainda dentro de limites
controlados.
O sistema não desabou.
Apenas revelou uma fissura importante.
E, num regime que vinha operando como bloco fechado, isso já
muda muita coisa.
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