O novo mapa-múndi
bizarro do IBGE de Márcio Pochmann
Por Fabio
Calsavara
· 12/05/2026
O presidente do IBGE, Marcio
Pochmann (à direita, de paletó cinza
e sem gravata), segura o novo mapa-
múndi "descolonizado" produzido
pelo instituto.
(Foto: Thiago Antunes / IBGE
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou neste mês um novo mapa-múndi como parte das comemorações pelos 90 anos de existência do órgão.
A
princípio, não seria nada de mais, mas nesse processo o instituto parece
ter feito questão de menosprezar a inteligência dos brasileiros.
Assim como outros produtos made in IBGE, a arte do mapa-múndi “Riqueza de Espécies 2025” aparece “de ponta cabeça”, com a metade Sul na parte de cima, e com o Brasil ocupando a parte central.
Decisões que, segundo o presidente do instituto, desafiam
“séculos de visão eurocêntrica” e reposicionam o país no centro do debate sobre
poder no planeta.
“O IBGE transforma a cartografia em afirmação política e
civilizatória, pois coloca o Brasil no centro, inverte o eixo Norte–Sul e
revela os continentes em proporções reais”, resumiu Marcio Pochmann.
A questão principal nem é a inversão do eixo Norte-Sul, como destacado pelo presidente do IBGE.
Afinal, a Terra tem um formato
próximo ao esférico, e os conceitos de “para cima” e “para baixo”, quando
observados em escala planetária, acabam sendo meras convenções
político-sociais.
Principal problema está na
escala do mapa
O mapa comemorativo em questão tem como objetivo representar a riqueza de espécies animais pelo mundo.
De forma mais
detalhada, o IBGE usou dados de diversas fontes para medir a quantidade
potencial de espécies de anfíbios, pássaros, mamíferos, répteis, crustáceos e
peixes de água doce nos países.
E é aí que está o problema maior: a escala utilizada no mapa vai apenas de “baixo”, nas cores vermelhas, a “alto”, em tons de verde.
Sem nenhuma outra informação disponível, o Brasil se torna um grande ponto verde em meio ao vermelho dominante.
E esse é o ponto que o IBGE quer vender: o de que o Brasil é o maior nicho de biodiversidade do planeta.
ção. maior? O que é preciso para ficar na porção verde do mapa? Qual é essa concentração de biodiversidade?
Será 2, 3, 10 animais diferentes por km²? Quem olhar para o mapa pela internet ou na versão impressa – sim, o mapa está à venda por R$ 25 no site do IBGE, em português e inglês – não encontra essa informa.
A Gazeta do Povo entrou em contato com o instituto questionando o método utilizado para representar a biodiversidade.
Afinal, em mapas qualitativos, como o lançado pelo IBGE, o objetivo é dar uma
noção de escala dessa ou daquela informação presente no diagrama.
Em resposta, a assessoria de comunicação do órgão disse apenas que
a opção por uma escala simplista, de “alto” a “baixo” foi tomada “para
facilitar a compreensão pelo público geral/leigo”.
Como complemento da resposta, o IBGE informou que em uma das
fontes de dados, a International Union for Conservation of Nature –
União internacional pela Conservação da Natureza, em tradução livre –, o mapa
foi dividido em uma grade em que cada célula tem 100km² de área.
Ganharam a cor vermelha e suas variações as localidades onde esses valores partem de 1.
Do mesmo modo, do lado oposto, os tons mais
intensos de verde representam localidades onde essa variedade é de mais de 1,8
mil espécies por célula de 100 km².
Assim, para o IBGE o brasileiro, em geral, não conseguiria
entender, por exemplo, que um amarelo intermediário representaria algo em torno
de 900 espécies por 100km².
Presidente do IBGE divulgou
versão incompleta do mapa
Ao divulgar a imagem do novo mapa-múndi em seu perfil no X, Marcio
Pochmann, presidente do IBGE, postou
uma imagem onde era possível identificar duas palavras em latim
sobre o continente africano: Lorem ipsum.
O termo é muito utilizado na produção de materiais gráficos e faz parte de um texto em latim que é costumeiramente diagramado quando se quer testar um layout.
Em outras palavras, o Lorem ipsum é
um forte indicativo de que o produto gráfico, qualquer que seja, ainda não está
finalizado.
À reportagem, a assessoria de imprensa do IBGE minimizou o caso dizendo que “o artefato se deve provavelmente a algum erro na geração ou inserção da imagem na página”.
Nas versões oficiais, digital e impressa, não há
nenhum Lorem ipsum,
afirmou a nota da assessoria.
Nova representação dos países
é “mais justa e descolonizada”
Além de aparecerem invertidos em relação aos mapas tradicionais, o formato dos continentes também chama a atenção pela aparente distorção.
Para o
IBGE, isso está longe de ser um defeito: é uma característica inovadora
do produto.
A nova projeção, chamada de Equal Earth, é descrita como algo moderno, que segue a curvatura da Terra e representa os continentes em proporções reais.
Mais do que isso: o novo mapa traria uma visão
mais “justa e descolonizada do mundo, corrigindo o viés eurocêntrico
presente em mapas tradicionais e servindo como uma ferramenta educacional e de
representação mais equilibrada”.
“[Foi] Criada em 2018 por Bojan Šavrič, Tom
Patterson e Bernhard Jenny, com o objetivo principal de oferecer um mapa-múndi
que não distorcesse as formas e mantivesse a equivalência das áreas das massas
de terra, ou seja, que fosse visualmente agradável e mais realista”, descreve o
IBGE, em sua página.
Mapas diferentes geraram
críticas internas no IBGE
O primeiro mapa-múndi com o Brasil no centro foi lançado pelo IBGE em 2024, durante a presidência do país no G20.
O primeiro mapa invertido veio
no ano seguinte, em 2025, como parte das comemorações em torno da COP30 no
Brasil.
A série de mapas que apresenta o Brasil ao centro e inverte a posição norte-sul já gerou resistência dentro do próprio instituto.
Em 2025, entidades sindicais de servidores afirmaram que o mapa “distorcia a realidade” e classificaram a proposta como uma “encenação simbólica”, sem respaldo nas convenções cartográficas internacionais e potencialmente prejudicial à credibilidade do órgão.
https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/o-novo-mapa-mundi-bizarro-do-ibge-de-marcio-pochmann/


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