Por que as pessoas de
esquerda têm uma saúde mental pior do que as de direita?
Por Fabio Calsavara 04/05/2026
Diversas pesquisas mostram relação entre a
esquerda e os diagnósticos de psicopatologias.
(Foto: Paulo Pinto / Arquiv/ Agência
Brasil)
Dois pesquisadores independentes conseguiram demonstrar em um artigo científico algo que muita gente já
sabia – ou pelo menos desconfiava: quanto mais de esquerda é uma pessoa,
maiores são os índices de diagnósticos psicopatológicos e menor é a satisfação
dessa pessoa com a vida, em geral.
Além disso, a análise revela que marcadores visuais como cabelos
de cores não naturais (tingidos de azul, amarelo, rosa, verde ou roxo),
piercings e tatuagens ajudam a prever, de forma bastante segura,
se uma pessoa tem ou não tendências de esquerda.
O artigo “Ideologia esquerdista, saúde mental e modificações
corporais” foi publicado no mês passado pelo Journal of Open Inquiry in the
Behavioral Sciences. No trabalho, os autores Emil O.
W. Kirkegaard, dinamarquês, e Meng Hu, natural de Hong Kong,
aplicaram questionários a 978 pessoas dos Estados Unidos para chegarem a suas
conclusões.
Antes de perguntar aos entrevistados de forma direta a qual partido político eles estavam ligados, os pesquisadores criaram uma série de questões que os permitiram estabelecer, de forma clara, se o participante se identificava mais com a direita ou a esquerda.
Entre as
perguntas estavam itens como “o mundo está sofrendo com a superpopulação”, ou
“o comportamento homossexual não é um problema desde que seja
conduzido em ambiente privado”.
Quanto mais à esquerda, mais precária é a
condição de saúde mental
Como resultado, a pesquisa identificou uma ligação clara entre uma inclinação política à esquerda e indicadores de saúde mental mais precários.
Essa correlação abrange tanto uma redução no bem-estar
positivo (como a satisfação com a vida) quanto um aumento em sintomas e
diagnósticos negativos (como depressão e ansiedade).
E o inverso também é verdade.
Segundo o estudo, quanto pior é o
quadro de saúde mental de uma pessoa ou mais desgostosa da vida ela é, mais à
esquerda ela se encontra no espectro político.
Entre os diversos diagnósticos analisados, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) mostraram-se os preditores mais consistentes e confiáveis da ideologia de esquerda.
Isso significa que dentre os entrevistados, quem tinha esses
diagnósticos era frequentemente mais alinhado aos democratas.
Para validar suas descobertas, os pesquisadores colocaram outras variáveis à prova, como idade, sexo ou raça.
Ainda assim, a ligação entre
pensamento de esquerda e as psicopatologias seguiu forte.
Cabelo tingido e piercings são fortes
indicadores de que uma pessoa é de esquerda, diz estudo
Sobre as modificações corporais, o estudo identificou que pessoas com cabelos tingidos de cores não naturais são frequentemente associadas à esquerda.
Em relação ao uso de piercings, essa correlação aparece de forma mais robusta naqueles indivíduos com os acessórios presos ao septo nasal ou nos órgãos genitais.
Em conjunto com o cabelo colorido, esses marcadores podem
elevar significativamente a probabilidade estatística de um indivíduo ser de
esquerda.
Os autores sugerem que essas modificações são manifestações visíveis de uma orientação psicológica de abertura a experiências não normativas.
Elas sinalizam uma rejeição à conformidade tradicional em favor da
autoexpressão e da “verdade subjetiva”.
Ou seja: indivíduos de esquerda são mais propensos a adotar
modificações corporais como uma forma de sinalização identitária que
desafia as normas estéticas e sociais tradicionais.
Entre as possíveis interpretações dos resultados, os autores
propõem que o conservadorismo pode estar ligado a uma moralidade objetiva
e valores tradicionais que promovem o autocontrole e a coesão social, enquanto
o progressismo e seu relativismo moral podem levar a uma “desorientação
normativa” com consequências psicológicas adversas.
Da mesma forma, o esquerdismo pode refletir uma maior abertura a comportamentos que se desviam da norma (como modificações corporais), o que pode atrair estigma social e impactar negativamente a saúde mental.
Em resumo, a maior prevalência de traços psicopatológicos
entre esquerdistas seria uma consequência psicológica de uma visão de mundo
que sofre com a falta de uma “bússola moral” fixa.
Estudo identificou um achado sugestivo
nos indivíduos ligados à direita
Por fim, a análise dos dados mostrou que a relação entre
diagnósticos e inclinação política se mostrou bastante
assimétrica: enquanto quase todos os indicadores de psicopatologia estão
associados à esquerda, a direita política está geralmente associada a uma
melhor saúde mental e a uma menor prevalência de diagnósticos clínicos.
No entanto, um achado foi considerado sugestivo pelos pesquisadores por se desviar dessa tendência.
Em quatro dos quase mil
entrevistados foi possível aferir que problemas de Transtornos
de Espectro Esquizoide poderiam predizer a inclinação política à direita.
Por ser uma amostra tão pequena dentro do público total, o estudo trata esse achado como sendo de baixo poder estatístico.
Mas há uma ressalva a
ser verificada em futuros estudos com um público maior: os
pesquisadores sugerem que essa tendência pode refletir o fato de que,
no clima político americano atual, o conservadorismo pode atrair indivíduos
propensos ao pensamento conspiratório, traço que é comum em condições do
espectro da esquizofrenia.
Mesmo assim, o estudo mostra que a direita política não apresenta diagnósticos específicos associados a psicopatologias de forma robusta.
Pelo contrário, o conservadorismo correlaciona-se com maiores
níveis de satisfação com a vida e uma visão de mundo baseada em valores
tradicionais e moralidade objetiva, o que, segundo a interpretação dos
autores, pode promover maior autocontrole e coesão social.
Estudo não é caso isolado
A pesquisa conduzida por Kirkegaard e Hu não é um caso isolado.
O
Centro de Pesquisas Pew realizou um levantamento em
2020 que encontrou resultados parecidos: esquerdistas são mais propensos a
diagnósticos de problemas de saúde mental do que conservadores.
Mas, mais interessante do que isso, a pesquisa mostrou que quanto
maior a frequência em locais de oração, como templos e igrejas, mais baixos são
os diagnósticos de doenças mentais.
Aqueles mais ligados à esquerda parecem ter níveis maiores de depressão, solidão e ansiedade, mostrou a pesquisa.
Mas o ponto positivo é que
os efeitos da religião sobre o sofrimento mental se mostram reparadores em
ambos os lados do espectro político.
Em outro levantamento, pesquisadores das universidades de Yale e Tuft, nos Estados Unidos, demonstraram que conservadores norte-americanos tendem a avaliar sua saúde mental de forma mais positiva que s pessoas de esquerda.
Entre aqueles ligados à direita, o artigo publicado na Biblioteca Nacional de
Medicina dos EUA em abril de 2025 mostra que há fortes relações com medidas de
personalidade associadas a uma melhor saúde mental, como religiosidade e
patriotismo.
Um terceiro estudo, baseado em dados coletados junto a famílias americanas em 2024, mostra que mulheres jovens associadas à esquerda se sentem mais solitárias e tristes do que seus pares de direita.
Enquanto 37%
das conservadoras disseram estar “completamente felizes” com suas vidas, apenas
12% das esquerdistas estavam nas mesmas condições.
Uma possível interpretação desses dados, aponta a pesquisa, diz respeito à influência do “pensamento catastrófico” no declínio do bem-estar emocional dessas mulheres.
Ao adotar uma visão excessivamente negativa do
mundo, ao mesmo tempo em que minimiza a própria capacidade de lidar com os
problemas da vida, esse público estaria caminhando a passos largos para quadros
como depressão.
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