Em 27 de maio de 1942, Reinhard Heydrich, então designado como Protetor do Terceiro Reich na Boêmia e Morávia, áreas ocupadas há mais de três anos pelas tropas nazistas, dirigia-se da vila onde morava para seu escritório no centro de Praga, na Tchecoslováquia (hoje República Tcheca).
Numa esquina perto próxima ao escritório, o carro em que viajava foi emboscado por dois integrantes da resistência tcheca, treinados na Inglaterra e lançados de paraquedas sobre a Tchecoslováquia. Atingido pelos tiros no atentado, o oficial da SS protegido de Himmler e Hitler e um dos mais cruéis da SS (o próprio Adolf Hitler descreveu-o como “homem de coração de ferro“), um dos idealizadores da Solução Final (plano nazista de remover a população judia de todos os territórios ocupados pela Alemanha), morreria uma semana depois de infecção generalizada no hospital.
Enraivecido pela morte de um de seus seguidores mais leais, Hitler ordenou a Karl Hermann Frank, substituto de Heydrich que fizesse de tudo e não poupasse vidas para achar os responsáveis pela morte do oficial nazista e de se vingar dos tchecos. Seguiu-se uma retaliação sangrenta e generalizada das tropas nazistas contra a população civil tcheca. Os alemães invadiram 5.000 cidades e vilas prendendo 3.180 pessoas, dessas, 1.344 foram condenados a morte.
Inicialmente, Hitler ordenou a prisão e execução de 10.000 tchecos selecionados aleatoriamente, mas a ideia foi descartada porque o território tcheco era uma zona industrial de vital importância estratégica para que realizassem uma matança indiscriminada, que poderia reduzir a produtividade da região. A Gestapo, mediante pressão para prender os assassinos de Heydrich, precisava desesperadamente de um bode expiatório e a aldeia de Lídice foi escolhida. Com um relatório falso a Gestapo afirmou que Lídice era suspeita de dar guarida e esconder os assassinos.
Pouco depois da meia noite, em 10 de junho, no dia do funeral de Heydrich, aconteceria aquela que se tornaria a história, mais tristemente famosa por sua crueldade. A pequena vila de Lídice, no distrito de Kladno, a vinte quilômetros de Praga, uma comunidade dedicada à mineração, foi cercada por tropas nazistas, impedindo a saída de seus moradores.
Todos os habitantes homens com mais de quinze anos foram separados de mulheres e crianças, e colocados em um celeiro e fuzilados em pequenos grupos no dia seguinte. Quando já havia uma pilha de mortos os que se seguiam eram obrigados a subir para cima da pilha para serem fuzilados. A crueldade foi tanta, que nem os pacientes dos hospitais foram poupados, sendo todos mortos, transgredindo assim, tratados internacionais.
Tiveram o requinte de procurar de um homem que, tendo mudado de turno na fábrica, não estava na aldeia. Fuzilaram-no, assim que o encontraram. Mesmo aqueles enterrados no cemitério da cidade não foram poupados. Seus restos mortais foram exumados e terminaram na fogueira. Lídice não só não poderia ter sobreviventes, como as famílias não poderia haver memória.
E não acabou: todos os animais na aldeia foram abatidos também. Três dia depois as mulheres foram separadas dos seus filhos. Destes, a grande maioria foi assassinada por asfixia no campo polaco de Chelmno, com gás carbônico que emanava de camionetas adaptadas, a primeira forma de extermínio. As mulheres foram enviadas para o campo de Rawensbruck onde a grande maioria viria a morrer de tifo e exaustão.
Após o assassinato e o desterro de toda a população, a cidade inteira foi demolida por explosivos e deixada apenas em terra, aplainada por tratores. Os alemães espalharam grãos e cevada pelo chão de toda a área para transformá-la em pasto e a riscaram dos mapas da Europa. Cerca de 340 habitantes de Lídice morreram no massacre alemão, 172 homens, 80 mulheres e 88 crianças.
Uma outra pequena aldeia de Lezaky a leste de Praga, também foi destruída e seus habitantes executados. A vingança alemã causou em toda a Tchecoslováquia e se estendeu a parentes e amigos de resistentes, integrantes da elite do país suspeitos de deslealdade. Os assassinos de Heydrich acabariam se suicidando em Praga quando estavam prestes a serem presos pela SS.
Diferente de outros crimes de guerra que os nazistas cometeram na época e mantiveram em segredo, a propaganda alemã fez questão de anunciar publicamente ao mundo os eventos de Lídice, como uma ameaça e um aviso à população cativa da Europa então ocupada pela Alemanha. A notícia causou uma onda de terror e indignação mundial e a propaganda britânica aproveitou o fato para alardear os crimes do III Reich e fez um filme sobre o genocídio, “A Vila Silenciosa”.
Lídice tornou-se um símbolo da crueldade nazista durante a guerra e diversos países batizaram cidades e vilas com o seu nome, para que ela jamais fosse esquecida, como era a intenção de Adolf Hitler, inclusive no Brasil, no estado do Rio de Janeiro. Mulheres nascidas no pós-guerra também foram batizadas com o nome de Lídice por seus pais.
Mesmo tendo sido totalmente apagada do mapa, Lídice foi novamente reconstruída e ampliada em 1949, a setecentos metros da área onde havia o vilarejo destruído pelos nazistas, mantido virgem como um campo santo e o terreno onde existiu é marcado apenas por um memorial – onde queima uma chama eterna – oficialmente denominado como monumento nacional pelo governo tcheco.
Atualmente, Lídice é uma cidadezinha tranquila, com algumas ruínas de pedra de uma casa de fazenda e da igreja, e uma escultura de bronze impressionante de crianças. A escultura, intitulada “Memorial às Crianças Vítimas da Guerra” compreende 82 estátuas de bronze de crianças. A obra foi feita pela artista Marie Uchytilová na década de 1990. O memorial foi erguido com vista para o local da antiga aldeia de Lídice.
Memorial às Crianças Vítimas da Guerra
Crédito das fotos do memorial: 1



Nenhum comentário:
Postar um comentário