Negociação entre Irã e Estados
Unidos pode definir nova ordem global nos próximos dias Segunda-Feira | 13.04.26
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Os próximos dias devem definir se o confronto com o Irã caminha para uma acomodação temporária ou para uma mudança mais profunda no equilíbrio global.
O cessar-fogo anunciado reduziu a
temperatura do conflito, mas não resolveu o núcleo do problema.
A questão de
fundo continua aberta: até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir para
impedir que o regime iraniano preserve capacidade nuclear, mantenha pressão
sobre o Estreito de Ormuz e siga operando como ponta de lança do eixo formado
por China, Rússia e Irã.
Há um erro recorrente na leitura desse episódio.
Muita gente encara o Irã como mais um ator autoritário do Oriente Médio, quando o problema é mais grave.
Trata-se de
uma teocracia radical que, há décadas, combina repressão brutal interna,
financiamento de grupos terroristas e ambição estratégica regional.
Não é um
regime preocupado apenas em sobreviver e sim um regime que atua para
desestabilizar a região, expandir sua influência e confrontar diretamente os
interesses americanos e de seus aliados.
Esse ponto importa porque ajuda a entender por que a crise atual não pode ser lida como um conflito isolado.
O Irã está integrado a uma engrenagem maior.
A Rússia oferece tecnologia, apoio e coordenação estratégica.
A China sustenta financeiramente o regime ao comprar seu petróleo em larga escala.
Sem esse respaldo, a ameaça
iraniana teria outro tamanho.
Por isso, o que se discute agora não é apenas Teerã.
É a capacidade do bloco
sino-russo-iraniano de testar os limites da força americana e acelerar a
decomposição da ordem construída no pós-Guerra Fria.
A operação militar, pelo que se descreve, atingiu alvos relevantes, enfraqueceu a cadeia de comando e degradou parte da infraestrutura estratégica do regime.
Mas esse
êxito tático não encerra a questão.
O centro da disputa saiu do campo militar e passou para a mesa de negociação. É aí que o assunto ganha peso histórico.
Se o Irã usar a trégua apenas para reorganizar
posições, manter o enriquecimento de urânio e continuar pressionando Ormuz, o
cessar-fogo terá servido apenas como intervalo entre duas fases da mesma crise.
Ormuz, aliás, é a peça mais sensível desse tabuleiro.
Não se trata apenas de uma rota marítima importante, mas de um ponto vital para o fluxo global de energia.
Quando essa passagem entra em risco, o impacto vai muito além do petróleo.
Atinge transporte, fertilizantes, combustíveis, cadeias produtivas e inflação
em escala internacional.
É por isso
que o desfecho desse impasse interessa ao mundo inteiro. Não pelo valor
simbólico do conflito, mas pelo efeito material que ele pode provocar sobre a
economia global.
Também é nesse ponto que a reação da imprensa e da esquerda internacional revela sua assimetria habitual.
Há uma disposição constante de denunciar a ação americana
como fator de desordem, ao mesmo tempo em que se relativiza a natureza do
regime iraniano, seu histórico de terror e sua estratégia de chantagem
geopolítica.
O problema é que esse tipo de leitura inverte causa e consequência.
A desordem não nasce da tentativa de impor limites a um regime agressivo.
Ela nasce, antes, da
percepção de que esses regimes podem avançar sem enfrentar custo real.
Rússia e China observam esse episódio com atenção.
Não apenas por causa do Irã, mas porque o resultado dessa negociação ajuda a medir a disposição americana de sustentar a própria posição no mundo.
Um acordo frouxo sinaliza fraqueza.
Um
acordo duro, com limites reais ao regime, sinaliza outra coisa.
É justamente por isso que os próximos dias têm peso maior do que parece.
Eles podem dizer
muito sobre o futuro do Oriente Médio, mas vão dizer ainda mais sobre o tipo de
ordem global que começa a se formar diante dos nossos olhos.
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