Redação do Site Inovação Tecnológica - 23/10/2026
Areia viva
Há uma matéria-prima abundante em todo o mundo para a qual não temos nenhuma utilidade:
A areia do deserto.
Ela não vai bem na construção civil porque não serve para a
fabricação do concreto usando cimento tradicional, e vai ainda pior na
agricultura.
Mas é justamente neste último aspecto que pesquisadores de Abu Dhabi e da Suíça fizeram um progresso marcante:
Eles descobriram um meio de usar a areia do deserto não apenas como
meio de cultura para microrganismos, mas também tirar proveito desses próprios
microrganismo, abrindo caminho para o uso da areia biologicamente tratada como
solo agrícola.
O que acontece é que as bactérias e os fungos selecionados pela equipe secretam biopolímeros que tornam a areia mais resistente à erosão e diminuem a velocidade com que a água se infiltra.
Isso permite o crescimento de mais microrganismos e, eventualmente,
de plantas.
Esses biopolímeros, que são moléculas naturais constituídas por longas cadeias, semelhantes aos plásticos, criam uma rede microbiana ao permear a areia.
"Isso cria uma espécie de
material compósito natural," disse o professor Gustav Nystrom, dos
Laboratórios Federais Suíços de Ciência e Tecnologia de Materiais (EMPA).

[Imagem: Shahna Manakat Vakeri et al. - 10.1016/j.carbpol.2025.124361]

[Imagem: Shahna Manakat Vakeri et al. - 10.1016/j.carbpol.2025.124361]
Cultivando a areia
Os pesquisadores incubaram
amostras de areia do deserto de Abu Dhabi com diferentes microrganismos em uma
solução nutritiva e, em seguida, verificaram sua resistência mecânica e
permeabilidade à água.
O resultado foi que as amostras
misturadas com bactérias, em particular, mostraram-se significativamente mais
resistentes do que a areia pura e reduziram a permeabilidade à água em até seis
vezes.
Juntamente com os microrganismos, a retenção de água pode fazer a diferença para o uso de solos arenosos para agricultura - a areia permite que a água se infiltre rápido demais, resultando em uma demanda muito alta por irrigação.
Além disso, a areia
normalmente não contém nutrientes orgânicos que possam sustentar microrganismos
ou plantas, e os grãos de areia não se aglomeram, o que torna os solos arenosos
especialmente suscetíveis à erosão.
O que aconteceu foi que os micróbios atuaram diretamente nas amostras de areia.
Mas os pesquisadores foram além, utilizando os microrganismos - especificamente bactérias que secretam nanocelulose - para produzir os chamados geotêxteis, autênticos tapetes de celulose, que foram então combinados com a areia para formar estruturas em camadas.
Esse processo apresentou os melhores resultados em termos de
estabilidade e permeabilidade à água, que foi reduzida em 28 vezes.
Testes de campo
"Esta abordagem nos permite introduzir matéria orgânica e água na areia e estabilizá-la um pouco," comentou Nystrom.
"Em termos ideais, isto permitirá o
crescimento de mais microrganismos e plantas, iniciando assim o processo de
tornar o solo mais resistente e fértil".
Mesmo com a adição dos
biopolímeros, a areia não compactou excessivamente, o que poderia inibir o
desenvolvimento das plantas.
"A implantação destes microrganismos não é ficção científica:
O deserto está lá, e os nutrientes
estão prontamente disponíveis, por exemplo, açúcares provenientes de resíduos
alimentares e nutrientes complexos em resíduos verdes municipais," acrescentou
o professor Blaise Tardy, da Universidade Khalifa.
Os experimentos com a areia de deserto em laboratório foram apenas o primeiro passo.
O próximo será usar os
biopolímeros em estudos de campo controlados e em estufas, para ver que efeito
eles têm no crescimento das plantas e qual é o potencial real da tecnologia
para a agricultura.

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