Parlamentares
dizem que carta é rompimento e fortalece o impeachment
No texto-desabafo, vice-presidente afirmou
que Dilma sempre teve 'absoluta desconfiança' nele próprio e que sempre foi
tratado de forma 'decorativa'
Vice-presidente
Michel Temer escreve carta que cita desconfiança do governo em relação ao PMDB(Ueslei Marcelino/Reuters)
O tom beligerante da carta enviada pelo vice Michel Temer à
presidente Dilma Rousseff é um sinal inequívoco das intenções do peemedebista
de romper com o Palácio do Planalto e de escancarar o caminho para poder
navegar em carreira solo em prol do impeachment.
Essa é a avaliação de parlamentares
no Congresso Nacional.
Hoje eles compartilharam a análise de que um recuo de
Temer é impossível, ainda mais diante do grau de insatisfação exposto no
documento, que afirma que Dilma tem "absoluta desconfiança" no PMDB e
nele próprio e que no papel de vice-presidente sempre foi tratado de forma
"decorativa".
Nesta terça, depois do vazamento da carta, Temer se
reuniu com aliados.
"Passei
os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. Perdi todo
protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo
governo.
Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises
políticas", disse Temer em um dos trechos da carta-desabafo.
Dentro do
PMDB, o diagnóstico é o de que Temer verbalizou a insatisfação de uma parte representativa
dos quadros peemedebistas e, com isso, deve atrair apoios e "solidariedade
de muitos colegas" e minar a força política de lideranças do partido
alinhadas ao Palácio do Planalto, como Leonardo Picciani (PMDB-RJ).
O próximo
passo deve ser a legenda fazer consultas às bancadas da Câmara e do Senado e
aos diretórios regionais para decidir qual será a posição formal do PMDB sobre
o impeachment. Entre os senadores, o tom é de mais cautela, tentando
circunscrever o desabafo a uma visão pessoal do vice.
"A
carta do Michel foi para restabelecer verdades. Não sei se é orientação do
marketing dela, mas a presidente Dilma estava querendo se vitimizar e
constranger o Michel a assumir uma posição contra o impeachment.
Quando ele
demonstra insatisfações na carta, agora vai atrair a solidariedade de muitos
colegas", disse o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).
"Essa carta é
o próprio rompimento. Ela exprime o sentimento de quem ficou fazendo um
torniquete ao longo de cinco anos sobre os maus tratos sofridos na condição de
vice.
É uma coisa que não tem mais volta. A sorte está lançada", afirmou o
líder da minoria Pauderney Avelino (DEM-AM).
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"Ele
estava com essa indignação presa e mostrou que a tal lealdade que a Dilma
propalava era mais uma armadilha para constrangê-lo. Isso foi o maior combustível
depois da deflagração do processo de impeachment e gerou uma solidariedade
dentro do Congresso e, especialmente, dentro do PMDB. Vai incendiar o
debate", declarou o líder do DEM na Câmara Mendonça Filho (DEM-PE).
Reservadamente,
peemedebistas afirmam que o clima no Congresso pode sair de controle e a
presidente Dilma perder os parcos flancos de apoio na Câmara.
"Queremos
tocar o caos. Se vai dar em impeachment ainda não sabemos, mas aqui será o
caos", afirmou um oposicionista. Para outro aliado de Temer, "esse
episódio do vazamento [da carta] foi traumático e a bancada está dividida entre
os mais próximos do Michel e do Picciani".
"O governo tentou
colocá-lo como um conspirador [com o vazamento]. Ele ficou muito chateado e se
irritou porque a carta era uma coisa pessoal", disse. Nesta segunda-feira,
depois de ver trechos do documento vazados, o próprio Temer, segundo aliados,
decidiu divulgar a íntegra do desabafo.
No
Senado, a carta de Michel Temer também foi interpretada como a demonstração do
divórcio iminente entre o vice e a presidente Dilma.
"O desabafo do
vice-presidente demonstra que a presidente da República não tem habilidade
política sequer para contar com o apoio quem foi eleito ao seu lado na campanha
de 2014. É um rompimento explícito de Temer com Dilma", disse o senador
tucano Paulo Bauer (SC).
"A
carta de Michel Temer é uma declaração a favor do impeachment de Dilma. Houve
uma posição sem rodeio, onde expõe, além da incapacidade administrativa, a
falta de apoio político da presidente", declarou o senador Ronaldo Caiado
(DEM-GO).
Publicamente,
o PT tenta relativizar o estrago político da carta-bomba do vice-presidente
Michel Temer. Nos bastidores, porém, o dia será de reuniões para analisar as
chances da debandada do PMDB. "Nessas horas, a gente tem de ter cuidado
para não fazer da política uma atividade em doutorado em conspirações.
Uma
carta com essa expressão de opiniões é normal dentro da política, faz parte de
uma crítica que o vice colocou a alguns processos que ocorreram dentro do governo",
relativizou o vice-líder petista Henrique Fontana (PT-RS). Embora o tom duro da
carta seja evidente, Fontana arriscou a tese improvável de que a manifestação
de Michel Temer não é "nenhum sinal de rompimento".
"A
carta indica o menosprezo com que o governo do PT tratou ao longo desses anos
os seus aliados. É o menosprezo da hegemonia daqueles que estão no poder pelo
poder e tratam seus aliados como subalternos. É evidente que provoca reação.
Isso é sinal de rompimento, sinal de que não há mais como PT e PMDB
conviverem", rebateu o líder do PPS na Câmara Rubens Bueno (PR).
Entre
os tucanos, a análise dos impactos da carta-desabafo de Temer provocou um
efeito diferente. Embora reconheçam que o documento escancara o racha no PMDB e
fortalece o impeachment, parlamentares do PSDB ainda apostam na queda de toda a
chapa do Palácio do Planalto, Temer incluído.
Isso porque o peemedebista também
assinou parte dos decretos sem número das pedaladas fiscais liberando crédito
sem o aval do Congresso. Os decretos são o principal argumento utilizado pelo
presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para acatar o pedido de
impeachment de Dilma.
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os tucanos, a análise dos impactos da carta-desabafo de Temer provocou um
efeito diferente. Embora reconheçam que o documento escancara o racha no PMDB e
fortalece o impeachment, parlamentares do PSDB ainda apostam na queda de toda a
chapa do Palácio do Planalto, Temer incluído.
Isso porque o peemedebista também
assinou parte dos decretos sem número das pedaladas fiscais liberando crédito
sem o aval do Congresso. Os decretos são o principal argumento utilizado pelo
presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para acatar o pedido de
impeachment de Dilma.

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