► A CORRIDA.

Corria o ano de 2012 e o meu entusiasmo com o Porsche 356 e respectivo clube (que ajudei a formar) estava no auge. Eram poucos os eventos que falhava em Portugal ou mesmo no estrangeiro, como o atesta a bem nutrida representação portuguesa no International Porsche 356 Meeting realizado em Merano, Itália, nesse mesmo ano, onde pela primeira vez tomei contacto com um acontecimento desse tipo e dimensão. Não se estranhará portanto que quando me falaram em estar presente na Santa Cruz Air Race tenha eu dito imediatamente “que sim”. Só depois dei comigo a pensar “mas que raio fará um Porsche 356 numa corrida de aviões?”
 
Soube-o pouco depois. Alguém ligado à organização veio ter comigo para me fazer uma proposta supostamente irrecusável:
 
– “Que dirias tu (eu) de uma corrida taco-a-taco com um avião na pista de Santa Cruz? A ver quem chegava primeiro aos 1000 pés, mais ou menos 300 metros. Era giro”
 
Achei a ideia algo bizarra e apeteceu-me perguntar se não seria mesmo ilegal mas depois dei comigo a pensar que o melhor era ficar calado pois quando a gente tem medo das respostas o melhor é não fazer as perguntas. Elementar bom senso.
 
Carro e avião a acelerar lado a lado só para ver quem chegava primeiro aos 1,000 pés? Achei a ideia um bocado excêntrica e potencialmente perigosa mas cá no íntimo começava a achar-lhe graça e a pensar para mim próprio que “isto com o piloto certo no avião até era capaz de ter graça. No avião e no carro, já agora.”
 
 
– “E quem é que vai pilotar o avião?”, perguntei ao meu interlocutor. “Qual avião? Tem que ser alguém que saiba do assunto pois o menor descuido pode ser o fim de ambos os artistas”.
 
– “Simples. O Luis Garção vai lá dar umas cambalhotas com o Pitts e a gente consegue convencê-lo a alinhar neste número. Que achas?”
 
– “Acho bem. Com esse faço qualquer corrida. Não sei se ganho mas faço qualquer corrida”.
 
Conhecia bem o Luís Garção e sabia que estava perfeitamente à altura do desafio. Quando ele entrou como co-piloto na TAP já eu era comandante de Boeing 737 e isso permitiu que fizéssemos alguns voos juntos. Gostei dele logo na primeira vez. Bom profissional, simples, educado e divertido o Luís foi sempre boa companhia. Quer dizer, quase sempre. É que estou a lembrar-me daquela vez em que após termos descolado de qualquer lado numa manhã luminosa de verão com o B737 cheio de passageiros ele se virou para mim e atirou:
 
– “Oh Zé, isto agora estava mesmo a pedir era um tonneau barrilado. Que achas?’”
 
– “Acho que estás meio avariado, é o que eu acho. Já pensaste na velhinha que está no 3A? Podia ser tua avó e o mais certo era vomitar o croissant e a meia de leite do pequeno-almoço nas costas do passageiro da frente.”
 
– “Pronto, lá estás tu. Tudo muito certinho, muito calminho…”
 
(Nota importantíssima: Este diálogo nunca existiu; inventei agora mesmo. Foi só para abrir caminho ao que aconteceu 30 anos depois quando o Garção me convidou a ir dar uma volta com ele no Pitts e fazer umas acrobacias. Agradeci o convite mas deixei o aviso:
 
– “Se for contigo no Pitts não será a velhinha do 3A mas o velhinho do lugar de trás que te vai sujar o avião todo. Vai uma aposta?”)
 
Tempo para fechar parêntesis e voltar então à Santa Cruz Air Race de 2012. Acertadas as regras (quais regras?) do jogo lá fomos ambos para a cabeceira da pista, cada um com o seu veículo: o Luis com o Pitts, eu com o Porsche 356. Era suposto ser o controlador da torre a dar a partida mas para não o envolvermos naquela confusão decidimos que nos entenderíamos por sinais. 

Estacionávamos lado a lado e quando ambos fizéssemos o sinal de OK era só meter pé a fundo no carro e potência à frente no avião. Tudo muito simples e básico: o Pitts na faixa esquerda da pista, o Porsche na direita.
 
 
Assim foi. Quer dizer, mais ou menos. O Luis fez-me o sinal OK com o polegar da mão direita levantado e eu respondi com o meu virado para baixo. Não estava OK. 

Aproveitei para lhe fazer sinal que algo se passava à esquerda do avião e enquanto ele olhava à procura de algo que não existia carreguei no acelerador e fiz-me à pista. 

Apanhado desprevenido, o Garção deu corda ao hélice e passados alguns (demasiados) segundos de hesitação o Pitts lá começou a acelerar.
 
Dizem testemunhas completamente insuspeitas e algumas imagens (ainda não havia VAR) que o Porsche foi o primeiro a passar na marca dos 1000 pés. Depois o avião acelerou e desapareceu que nem uma flecha.
 
Bora lá outra vez, Luis?

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