Será que o maior problema é o PT?
Flávio deve fazer o que Jair não
fez para tirar o PT do poder, mas o erro começa ao tratar uma sigla como se
fosse o ÚNICO problema do país
Chegou uma
pergunta na minha caixinha de perguntas do Instagram que começa com uma
lembrança curiosa: “assisti
à entrevista com Olavo em 2014”.
Aquela entrevista foi minha e você pode
assisti-la clicando
aqui, aliás. Mas o que é curioso que essa memória apareça
justamente nesta pergunta, porque uma das coisas que Olavo insistia em dizer, e
que a direita brasileira nunca engoliu, é exatamente o que precisa ser
respondido agora.
A pergunta é o que Flávio Bolsonaro
deve fazer que Jair Bolsonaro não fez para tirar o PT.
Antes de responder, é preciso avaliar a
premissa. Porque a premissa é que os problemas brasileiros seriam resolvidos
pelo fim do PT. Mas o furo é muito mais embaixo.
O PT teve um papel importante na destruição do Brasil por meio do processo gramsciano de aparelhamento das instituições, dentro e fora do Estado, em paralelo à subversão moral. Isso é verdadeiro.
Mas o maior problema não é o PT em si.
Essa hidra tem várias cabeças.
Perceba o caso de Alexandre de Moraes,
que hoje lidera o regime de repressão política no Brasil. Ele é um quadro
formado fora do PT. E isso não é figura de linguagem. Moraes foi secretário de
Segurança Pública de São Paulo no governo Geraldo Alckmin, de janeiro de 2015 a
maio de 2016. Era filiado ao PSDB até receber a indicação ao Supremo. Antes
disso, teve passagens pelo PMDB e pelo DEM. Foi secretário na prefeitura de
Gilberto Kassab. Em 2014, advogou para Eduardo Cunha. Foi ministro da Justiça
de Michel Temer. E foi Temer quem o indicou ao Supremo em fevereiro de 2017.
Ou seja: o homem que hoje é o rosto do
regime foi formado, promovido e nomeado inteiramente dentro do campo que se
apresentava como oposição ao PT. E o padrinho político dele, Geraldo Alckmin,
aquele que a imprensa vendia como o antípoda do lulismo, hoje é vice do
Descondenado.
Esse é o ponto que a direita precisa
entender. Apesar de o PT estar à frente do Executivo, ele não governa sozinho.
Ele é sócio do Centrão, que controla o Congresso e tem forte influência sobre o
próprio Supremo. O establishment brasileiro é dominado por uma oligarquia
política que controla o país há décadas, e o PT passou a integrar esse arranjo.
O PT não conquistou o Brasil. Ele foi
só “admitido” no clube.
Por isso, se quisermos mudar
efetivamente o país, não basta trocar o partido que ocupa o Executivo. É
preciso uma refundação, com o afastamento do poder dessa oligarquia corrupta
que atravessa governos, partidos, tribunais, gabinetes e bancadas.
Esse processo começou com a Lava Jato e
com a revolta popular. Entre 2014 e 2016, o Brasil chegou mais perto de
desmontar essa oligarquia do que em qualquer momento desde a redemocratização.
E repare no detalhe: não foi por eleição. Foi por investigação criminal somada
à rua.
A reação também não veio apenas do PT.
Veio de todos os lados do arranjo ao mesmo tempo, porque todos estavam
ameaçados ao mesmo tempo. Políticos, partidos, empresários, operadores,
ministros, congressistas e caciques perceberam que o velho sistema poderia
ruir.
Foi aí que a oligarquia descobriu que o
instrumento mais eficaz de autopreservação não era o voto nem o Congresso.
Era o Supremo.
De 2019 para cá, o que se vê no Brasil
não é simplesmente um governo perseguindo a oposição. É um establishment
inteiro protegendo a si mesmo e usando um tribunal para isso.
Esse foi o erro central de Jair
Bolsonaro. Ele governou como se o adversário fosse um partido. Negociou com o
Centrão achando que estava neutralizando o PT. Mas, na prática, estava
negociando com a mesma coisa.
O problema não foi apenas faltar
dureza. Foi não entender contra quem estava jogando.
A lógica da pacificação, as indicações
erradas, as concessões ao sistema, a tentativa de sobreviver dentro do arranjo
e as alianças com quem sempre viveu dele acabaram fortalecendo aquilo que
deveria ter sido desmontado. Bolsonaro achou que podia isolar o PT enquanto
entregava espaço à oligarquia que permitiu ao PT voltar ao centro do jogo.
É por isso que a pergunta sobre Flávio
precisa ser respondida com cuidado.
Não vejo um cenário em que Flávio
Bolsonaro possa retomar, sozinho, o processo de refundação do país. As
condições existentes entre 2016 e 2020 já não estão mais presentes. A janela
histórica mudou. A máquina aprendeu. O Supremo se armou. O sistema se reorganizou.
Mas Flávio pode ser uma ponte para a
retomada desse processo.
E ponte não é pouco.
Ponte é o que impede o país de
continuar afundando enquanto a refundação ainda não é possível. O urgente,
agora, é acabar com o estado de exceção em curso. Isso passa pela anulação das
condenações dos perseguidos políticos e pela retomada da vigência dos direitos
fundamentais mais básicos.
Em termos concretos, significa encerrar
inquéritos sem objeto e sem prazo, devolver ao Ministério Público o monopólio
da acusação, restaurar o contraditório, libertar quem está preso por opinião e
recompor a Corte pelas vagas que se abrem.
Se Flávio conseguir apenas isso, já
será um grande sucesso.
Porque o Brasil não está diante de um
problema comum de alternância de poder. Não se trata apenas de tirar um partido
e colocar outro. Quem acha que o problema é apenas o PT pode comemorar em
outubro e acordar em janeiro descobrindo que nada mudou: o Congresso é o mesmo,
a Corte é a mesma, o Centrão é o mesmo e o arranjo continua de pé.
Derrubar o PT é necessário, mas não é o
suficiente.
Confundir essas duas coisas foi
exatamente o erro que custou os últimos quatro anos. A direita tratou a sigla
como se fosse o monstro inteiro, quando ela era apenas uma das cabeças da
hidra.
O PT precisa sair. Mas, se a oligarquia
ficar, o sistema se adapta. Troca de roupa, muda de discurso, muda de vice,
muda de partido, muda de rosto, mas continua mandando.
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