Em uma hora de conversa, Moro apontou problemas na proposta da
Lei de Abuso de Autoridade, defendida pelo presidente do Senado, Renan
Calheiros (PMDB-AL), falou sobre o escândalo na Petrobrás, alertou para o
“risco à independência da magistratura” e defendeu o envolvimento do Congresso
no combate à corrupção e a importância de se criminalizar o caixa 2.
Acusado pelo PT de ser um algoz do partido, o juiz afirmou que
“processo é questão de prova” e acha “errado tentar medir a Justiça por essa
régua ideológica”.
Sobre atuação político-partidária avisa que não será
candidato: “Não existe jamais esse risco”.
O que mais chocou o senhor na Operação Lava Jato?
A própria dimensão dos fatos.
Considerando os casos já julgados aqui, o que nós
vimos foi um caso de corrupção sistêmica, corrupção como uma espécie de regra
do jogo.
O que mais me chamou a atenção talvez tenha sido uma quase
naturalização da prática da corrupção.
Empresários pagavam como uma prática
habitual e agentes públicos recebiam como se fosse algo também natural.
Isso
foi bastante perturbador. (Chamou a atenção) Também a constatação, e aí me
refiro a casos que já foram julgados, de que algumas pessoas que haviam sido
condenadas na ação penal 470 (mensalão no Supremo Tribunal Federal) persistiam
recebendo propinas nesse outro esquema criminoso na Petrobrás.
Foi uma coisa
bastante perturbadora.
Mesmo depois de deflagrada a Lava Jato, o esquema continuou por alguns meses?
O senhor defende a
extinção do foro privilegiado?
O Supremo tem cumprido um papel muito importante na Operação Lava Jato.
Longe
de mim querer avaliar o trabalho do Supremo, mas acho que o ministro Teori
Zavascki tem feito um trabalho intenso, muito importante e relevante.
Mas
existem alguns problemas estruturais: saber se o Supremo tem a capacidade, a
estrutura suficiente, para atuar em tantos casos criminais.
Tem o Supremo
condições de enfrentar toda essa gama de casos? Não que o Supremo não seja
eficiente, mas é um número limitado de juízes e é uma estrutura mais limitada.
O Supremo não tem só esse trabalho à frente, tem todos casos constitucionais
relevantes e não pode se transformar simplesmente em uma Corte criminal.
O
ideal seria realmente restringir o foro privilegiado, limitar a um número menor
de autoridades.
Quem sabe, os presidentes dos três Poderes e retirar esse
privilégio, essa prerrogativa, de um bom número de autoridades hoje
contempladas.
Acho que seria a melhor solução.
No início do ano o senhor
foi à Câmara dos Deputados falar do projeto das 10 Medidas contra a Corrupção e
disse que via com bons olhos aquele momento. Passados oito meses, o senhor vê a
instituição em sintonia com a voz das ruas?
Um fato que é bem interessante é que a instituição que mais respondeu a esses anseios foi, até o momento, o Poder Judiciário.
Não estou dizendo aqui da 13.ª
Vara (Federal, em Curitiba), mas o Poder Judiciário em geral.
Não temos visto
iniciativas tão significativas por parte dos outros Poderes. Nessa linha, a
discussão atual, a constituição dessa comissão para discutir o projeto das dez
medidas, é algo assim que nos dá esperança de que também o Congresso vai
acompanhar essa percepção de que é necessário mudar.
Da forma como foi
encaminhado, o projeto de Lei de Abuso de Autoridade preocupa?
Há dois problemas: uma questão do momento, que é um momento um pouco estranho para se discutir esse tema, e o problema da redação do projeto.
Por exemplo, a
previsão de algo como “promover a ação penal sem justa causa”.
Bem, qualquer
ação penal tem de ter justa causa. O problema é que direito não é propriamente
matemática.
Pessoas razoáveis podem divergir se está presente ou não a justa
causa para oferecer uma ação penal. O que isso vai significar na prática?
O
Ministério Público, por exemplo, oferece uma denúncia afirmando que tem justa
causa, isso vai a juízo, o juiz tem de receber ou não a denúncia, se entender
que é justa causa, e eventualmente o juiz pode discordar – “ah… não tem justa
causa” – e rejeitar a denúncia.
Pela redação do projeto, em princípio, isso
possibilitaria que o denunciado entrasse com uma ação penal por abuso de
autoridade contra o procurador, ou o promotor.
Vamos supor: o juiz decreta uma
prisão e, eventualmente, essa prisão é revogada, não porque o juiz abusou, mas
porque o juiz errou na interpretação da lei.
Isso de sujeitar o juiz a um
processo criminal é o que a gente chama de crime de hermenêutica.
Vai colocar
autoridades encarregadas da aplicação da lei, juízes, polícia e Ministério
Público numa situação em que possivelmente podem sofrer acusações, não por
terem agido abusivamente, mas, sim, porque adotaram uma interpretação que
eventualmente não prevaleceu nas instâncias recursais ou superiores.
Querem intimidar?
No momento (da propositura) do projeto e com essa redação, se pretenderem
aprovar e não colocarem salvaguardas à possibilidade de crime de hermenêutica,
vai ter esse efeito.
O senhor se sentiria
inseguro de enfrentar uma nova Lava Jato caso seja aprovado o projeto com o
texto atual?
Tem de se deixar claro na lei que a interpretação do juiz ou do Ministério
Público ou do agente policial não significa prática de crime de abuso de
autoridade. O projeto não garante isso.
O que tem de mudar no
projeto?
A redação do projeto teria de ser muito melhorada para evitar esse tipo de risco.
Porque esse risco vai afetar a independência da atuação, não só do juiz de
primeira instância, mas dos juízes de todas as instâncias, e do Ministério
Público e da polícia.
Como vê a criminalização
do caixa 2? Se passar, o que muda nas investigações sobre empreiteiras? Elas
admitem repasses de propinas via caixa 2 disfarçadas de “doações eleitorais”.
O assim chamado caixa 2, ou seja, o uso de recursos não declarados em campanhas
eleitorais, já é criminalizado no artigo 350 do Código Eleitoral.
No projeto 10
Medidas do Ministério Público Federal, há proposta para aprovação de uma
redação melhor para esse crime. Seria um passo importante do Congresso.
Se a
lei exige que todos os recursos eleitorais devem ser declarados, e isso é uma
regra básica de transparência, é isso que deve ser feito. No caso da Operação
Lava Jato, o foco não tem sido propriamente no caixa 2 de campanhas eleitorais,
mas no pagamento de propinas na forma de doações eleitorais registradas ou não
registradas, ou seja, crime de corrupção.
Então, embora a proposta represente
aprimoramento da lei atual, não terá um impacto tão significativo nos
processos. Sobre eventual proposta de anistia, creio que é prudente aguardar
eventual formulação concreta antes de opinar. Seria impensável, porém, anistia
de crimes de corrupção ou de lavagem.
O que fez a Lava Jato
funcionar?
É difícil fazer uma avaliação do que foi diferente. Tem muito de
circunstancial.
Acho que os crimes, considerando os casos que já foram
julgados, foram sendo descobertos, eles tinham uma grande dimensão. Isso gerou,
na sociedade, uma expectativa de que as instituições funcionassem.
Nós tivemos
aí milhões de pessoas que saíram às ruas, protestando sobre várias coisas, mas
protestando também contra a corrupção e dando apoio às investigações. Ao meu
ver, isso é algo muito significativo.
E situa de uma maneira muito clara esse
enfrentamento da corrupção como uma conquista da democracia brasileira.
A Lava Jato vai acabar com
a corrupção no Brasil?
Não, não existe uma salvação nacional, não existe um fato ou uma pessoa que vai
salvar o País. Um caso, pela escala que ele tem, como esse da Lava Jato, pode
auxiliar a melhorar a qualidade da nossa democracia.
Crítica recorrente das
defesas é que há excesso de prisões. A Lava Jato prende para arrancar delações?
É uma questão interessante, até fiz um levantamento, temos hoje dez acusados
presos preventivamente sem julgamento.
Dez apenas. Não me parece que seja um
número excessivo. Jamais se prende para obter confissões.
Isso seria algo
reprovável do ponto de vista jurídico. Sempre as prisões têm sido decretadas
quando se entende que estão presentes os fundamentos das prisões.
Quando se vai
olhar mais de perto os motivos das prisões, se percebe que todas estão
fundamentadas. Pode até se discordar da decisão do juiz, mas estão todas
fundamentadas. Estamos seguindo estritamente o que a lei prevê.
O senhor teme pelo futuro
do Brasil numa eventual delação do deputado cassado Eduardo Cunha?
Sobre esse caso do ex-presidente da Câmara, como é um caso pendente, eu não
tenho condições de fazer nenhum tipo de afirmação.
Mas não se deve ter receio
de qualquer problema dessa espécie em relação ao Brasil.
O País já enfrentou
desafios grandes no passado. O problema da corrupção é mais um problema a ser
vencido pela democracia brasileira.
Alguma delação ou processo
criminal tem o poder de parar o País?
Não, não acredito nisso. O que traz instabilidade é a corrupção e não o
enfrentamento da corrupção.
O problema não está na cura, mas, sim, na doença. O
Brasil pode se orgulhar de estar, dentro da lei, enfrentando seriamente a
corrupção. A vergonha está na corrupção, não na aplicação da lei.
A Odebrecht está em
negociação para fechar delação de mais de 50 executivos. Isso mostra que ela
estava completamente envolvida com esse esquema?
O que eu posso dizer é o caso que eu já julguei, que envolvia executivos dessa
empreita que teriam pago propinas milionárias em contas no exterior para
executivos da Petrobrás.
E, nessa linha, pelo menos naquele caso, aparentava
ser uma prática sistêmica, não fato isolado dentro da vida da empresa. Mas o
grande aspecto a ser ressaltado é como se sai disso.
E as empresas brasileiras
não tinham esse costume de reconhecer sua responsabilidade quando elas eram
surpreendidas praticando crimes. Quem sabe algo tenha mudado com a Operação
Lava Jato.
Deve haver um limite para o número de delações no processo
São mais de 30 partidos
políticos no Brasil. Por que só ex-tesoureiros do PT estão presos?
Considerando os casos que já foram julgados, há uma afirmação de que a vantagem
indevida, a propina que era paga nos contratos da Petrobrás, era dividida entre
os agentes da estatal e os agentes políticos ou partidos políticos que davam
suporte à permanência daqueles agentes da Petrobrás em seus cargos.
Nessa
perspectiva, quando isso foi de fato comprovado, é natural que apareçam nos
processos exatamente aqueles agentes políticos que pertenciam à base de
sustentação do governo.
Se havia uma divisão de propinas entre executivos da
Petrobrás e agentes políticos que lhes davam sustentação, vão aparecer esses
agentes que estavam nessa base aliada, como se dizia.
Ainda assim, falando de
ex-parlamentares que foram processados, casos que já foram julgados, têm
ex-parlamentares do Partido Progressista, têm do Partido dos Trabalhadores, tem
do PTB e tem do Solidariedade.
A Operação Lava Jato vai
poupar PMDB e PSDB?
Processo é uma questão de prova. A atuação da Justiça, do Ministério Público e da polícia não tem esse viés político-partidário. O fato é que, contra quem tenha aparecido provas, tem sido tomadas as providências pertinentes.
Processo é uma questão de prova. A atuação da Justiça, do Ministério Público e da polícia não tem esse viés político-partidário. O fato é que, contra quem tenha aparecido provas, tem sido tomadas as providências pertinentes.
Quais são as motivações do juiz Sérgio Moro? Muitos enxergam interesses político-partidários.
No fundo, o juiz está cumprindo o seu dever. Minhas reflexões têm por base os casos já julgados, considerando os casos já julgados.
Este caso que em seu
início parecia um caso criminal, não vou dizer trivial, mas se transformou em
um caso que diz respeito à qualidade da nossa democracia.
Porque esse nível de
corrupção sistêmica compromete a própria qualidade da democracia. É um trabalho
que se faz, eu acredito que leve, no futuro, talvez no presente, não sei, se já
tenha levado em termos, mas também para o futuro, que melhore a qualidade da
nossa democracia.
Existem bons administradores públicos, existem bons agentes
políticos, mas é importante que, constatado o comportamento criminoso, isso
tenha resposta na Justiça com afastamento desses administradores públicos e
agentes políticos desonestos. Acho que é um ganho para a democracia brasileira.
Uma pergunta que o País
inteiro está fazendo: o senhor vai mandar prender o ex-presidente Lula?
Esse tipo de pergunta não é apropriado, porque a gente nunca fala de casos pendentes.
Esse tipo de pergunta não é apropriado, porque a gente nunca fala de casos pendentes.
O senhor já votou no Lula?
É o tipo da resposta que eu não posso dar, porque acho que o mundo da Justiça e o mundo da política não devem se misturar.
É o tipo da resposta que eu não posso dar, porque acho que o mundo da Justiça e o mundo da política não devem se misturar.
O senhor se considera uma
pessoa com ideologia mais de direita ou mais de esquerda?
Esses processos (da Lava Jato), ao meu ver, não têm nada a ver com questão nem político-partidário nem político-ideológica.
Esses processos (da Lava Jato), ao meu ver, não têm nada a ver com questão nem político-partidário nem político-ideológica.
Então, se a pessoa é culpada ou
não, não importa se ela é de esquerda, se é de direita, se ela é de centro,
tampouco importa se o juiz é de direita, se é de esquerda ou se é de centro.
O
juiz vai julgar com base na lei e nas provas. Acho errado tentar medir a
Justiça por essa régua ideológica.
Por isso acho desimportante a minha posição
política. São muito discutíveis essas fronteiras entre esquerda e direita.
Sairia candidato a um
cargo eletivo? Ou entraria para a política?
Não, jamais. Jamais. Sou um homem de Justiça e, sem qualquer
demérito, não sou um homem da política.
Acho que a política é uma atividade
importante, não tem nenhum demérito, muito pelo contrário, existe muito mérito
em quem atua na política, mas eu sou um juiz, eu estou em outra realidade,
outro tipo de trabalho, outro perfil. Então, não existe jamais esse risco.
Como o senhor lida com o
culto a sua figura pública?
Vejo que existe essa operação, que é muito grande e tem diversos agentes públicos envolvidos, Ministério Público, Polícia Federal, Receita, Justiça das várias instâncias.
Vejo que existe essa operação, que é muito grande e tem diversos agentes públicos envolvidos, Ministério Público, Polícia Federal, Receita, Justiça das várias instâncias.
E, como pelo menos na Justiça, há um único juiz na primeira
instância – agora tem mais, mas no começo era um único juiz -, isso me deixou
mais em evidência e as pessoas, às vezes, fazem uma identificação da operação
com a figura do juiz, o que não é totalmente correta.
Isso tem gerado grande
atenção, e as pessoas, em geral, são generosas e bondosas.
O apoio da opinião
pública, realmente, tem sido essencial nesse caso. Mas tudo é passageiro, não
é? Tem um velho ditado do latim que diz sic transit gloria mundi, basicamente
“a glória mundana é passageira”.
O senhor foi ameaçado
alguma vez?
Essa é uma pergunta um pouco desconfortável. Eu prefiro não falar. Envolve questão de segurança, envolve questões relativas à minha família.
Essa é uma pergunta um pouco desconfortável. Eu prefiro não falar. Envolve questão de segurança, envolve questões relativas à minha família.
Lá na frente, quando se
aposentar, pretende advogar?
Eu gostaria de que fosse uma data mais próxima (a aposentadoria). Mas é uma data tão distante, que não tenho como…
Eu gostaria de que fosse uma data mais próxima (a aposentadoria). Mas é uma data tão distante, que não tenho como…
O senhor tem 20 anos de
carreira?
Sim, 20 anos de carreira no Judiciário, mas ainda muito chão pela frente para poder me aposentar e pensar nessa perspectiva.
Sim, 20 anos de carreira no Judiciário, mas ainda muito chão pela frente para poder me aposentar e pensar nessa perspectiva.
Pensa em subir para o
Tribunal Regional Federal 4 (TRF-4) ou Supremo Tribunal Federal?
Olha, sou um juiz de primeira instância fazendo meu trabalho no momento.
Olha, sou um juiz de primeira instância fazendo meu trabalho no momento.
Então,
claro que se pensa na carreira, como algo natural, pelo menos na carreira
ordinária, o tribunal um dia, mas isso é algo que não está no meu horizonte
próximo. Não fico meditando sobre isso.
Há algo que o senhor se
arrepende na condução da Lava Jato ou na sua carreira?
É cedo para esse tipo de reflexão. Evidentemente, como todos, também estou sujeito a praticar erros, praticar equívocos. Existe um sistema dentro do Judiciário, de erros e acertos, que propicia que minhas decisões sejam eventualmente revistas por instâncias recursais ou superiores.
É cedo para esse tipo de reflexão. Evidentemente, como todos, também estou sujeito a praticar erros, praticar equívocos. Existe um sistema dentro do Judiciário, de erros e acertos, que propicia que minhas decisões sejam eventualmente revistas por instâncias recursais ou superiores.
Os tribunais estão mantendo suas decisões em grande maioria…
É natural se um juiz tem uma decisão reformada, isso faz parte do processo. Ninguém precisa ficar magoado por isso, mas, nesses casos, os tribunais têm mantido a grande maioria das decisões, sinal de que está havendo uma aplicação correta da lei.
Dois anos e meio depois de
deflagrada a Lava Jato, por que o senhor decidiu dar a primeira entrevista?
Está acabando a operação?
Tem tido muitos convites para entrevistas, eu tenho sido, em geral, refratário aos convites.
Tem tido muitos convites para entrevistas, eu tenho sido, em geral, refratário aos convites.
Mas dada a dimensão desse caso, e há uma natural curiosidade do
público em relação a algumas posições do juiz, acabei concordando em dar essa
entrevista para prestar alguns esclarecimentos.
Quanto ao término da operação,
é um pouco imprevisível. Porque, embora haja muitas vezes expectativa de que os
trabalhos se aproximam do fim, muitas vezes se encontram novos fatos, novas
provas, e as instituições não podem simplesmente fechar os olhos, têm de
trabalhar com o que aparece. Então, é imprevisível.
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