☺Carta aberta aos machos


Carta aberta aos machos
Prezado companheiro de macheza, como está sua mulher hoje?
Perdoe-me começar esta carta assim, falando da sua patroa. Ainda mais hoje, Dia do Homem aqui no Brasil. É tempo de celebrar nosso gênero, de pensar na gente. Alguns comemoram o dia adotando práticas emblemáticas do macho. Um amigo jurou que passaria o dia todo zanzando pelo apartamento usando apenas cueca – do avesso, pois ele não a troca há três dias. Outro camarada está celebrando a data com a sua grande paixão: a cerveja. Há quem coce o saco apenas por coçar, para lembrar aos demais presentes "sou homem e hoje é meu dia". Há quem deixe o bigode.
São todos babacas.
O Dia do Homem não deveria existir. É isso mesmo, meu nobre camarada de macheza. A data é uma aberração que se propõe a celebrar um gênero tão mesquinho e egoísta como o nosso. Apenas o fato de termos criado tal dia mostra como somos pequenos. A data nasceu para que nós nos conscientizássemos em relação à saúde, mas a coisa descambou. Hoje, temos este dia apenas para afrontar mulheres. "Já que elas têm o Dia Internacional das Mulheres, por que não temos o nosso dia?"
Porque não merecemos, pois somos todos babacas.
E orgulhosos demais para perceber a legitimidade da luta das mulheres e de quão vazio é o nosso dia. Qual o nosso discurso para hoje? O que temos a reclamar ou celebrar? Elas, por outro lado, buscam igualdade, palavra que negamos a cada uma das mulheres durante toda a nossa história. Palavra que ainda hoje não conhecemos. Tome, por exemplo, alguns dos comentários do artigo "7 mitos machistas que eu e você reproduzimos" e você perceberá o quanto subjugamos as mulheres.

Macho: o rei do castelo

Nosso pau é o nosso poder. Nós, os machões babacas, acreditamos ser superiores às damas. Afinal, temos uma pica. Nada além de uma pica e muita testosterona para vociferar nosso poderio. Até mesmo e principalmente em casa, onde elas deveriam se sentir protegidas, nós impomos nossa força. Sentimo-nos os reis do castelo – e trancafiamos nossas rainhas e princesas no calabouço.

Nove dias antes do infame Dia dos Homens, a ONU Mulheres divulgou um relatório sobre a situação feminina no mundo contemporâneo. Nele, há um estudo conduzido em 11 países que aponta: até 16% das mulheres sofreram violência pelo menos uma vez na vida.

Aqui no Brasil, a situação é ainda mais grave. Números do Anuário das Mulheres Brasileiras 2011, do DIEESE, revelam que, em todo o País, 46,2% das mulheres afirmam já terem sido agredidas de alguma forma.

Mulheres apanham. Esta é a realidade. Enquanto isso, nós nos preocupamos apenas em vociferar a nossa macheza e nossa soberania, uma falácia que forjamos às custas daquelas a quem deveríamos devotar amor e respeito.

Talvez agressões não aconteçam na sua casa. Talvez nem na sua família. Mas tente enxergar fora dessa bolha de ignorância e perceberá que, ainda que alguns de nós não se atrevam a cometer atos hediondos contra as mulheres, exercemos outros tipos de dominação.

É comum a gente ouvir que elas ganham menos e, por mais que isso soe batido, é uma verdade vergonhosa. Segundo o Cadastro Central de Empresas divulgado pelo IBGE, o salário mensal médio recebido pelas mulheres é 20% menor que o dos homens. Mesmo aquelas com ensino superior são preteridas: 28,5% ganham até dois salários mínimos – entre os homens, o número cai para 13,5%. São minoria nos cargos de chefia.

Lamento levantar esses números tão vexatórios logo. Mas o motivo é bastante claro: a culpa desses índices é toda nossa.

Nós, ignorantes, que gostamos de fazer piadas sobre mulheres no volante sem imaginar que elas se envolvem em apenas 11% do total de ocorrências no trânsito, segundo o Denatran. Nós, machistas, que enxergamos nas mulheres apenas um objeto sexual. Nós, babacas barbudos.

Jogo de poder

Eu me lembro de uma crônica de Fabricio Carpinejar na coletânea Borralheiro. Me escapa o nome do texto específico, mas recordo o enredo. O talentoso escritor aponta que, hoje em dia, os homens estão mais propensos a ficar em casa, cuidando dos afazeres, enquanto as mulheres vão à luta no ambiente profissional. Ele comenta que ser este borralheiro nos dá poder, pois organizamos a vida no lar: sabemos onde tudo está e somos senhores da situação. A quem a mulher correrá quando quiser saber onde está guardado aquele sapato que ela tanto adora?
Eu discordo de Carpinejar.

Não devemos buscar poder. A relação entre homens e mulheres não é campo de batalha.
Não deve haver guerra dos sexos. Por que queremos essa superioridade? Por que inferiorizamos as mulheres? Para que possamos estufar o peito peludo e dizer "sou macho"?

Afinal, por que temos de ter um dia só nosso? Do que raios nos orgulhamos?
E, a pergunta mais importante de todas, a que abre esta carta: como está a sua mulher?
Espero que pondere, meu caro confrade de macheza, se devemos bater no peito e bradar nosso orgulho masculino ou se devemos abaixar a cabeça em sinal de culpa. Enquanto optarmos pelo orgulho, não somos merecedores de um dia como este.
Tapa nas costas (porque macho que é macho não dá abraços),
 

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