Direito, ou desejo, de quem quer tirar a roupa em público é alvo de reflexão
RIO -
Primeiro, uma mulher no parque. Depois, uma sob a chuva. E então veio uma
travesti, um ciclista, mais uma mulher. Agora, uma multidão está disposta a se
desnudar em Porto Alegre. Estratégia de marketing ou delírio coletivo, ainda
não está claro o motivo pelo qual as pessoas resolveram tirar a roupa. Fato é
que a novidade que vem do Sul reacendeu o debate, dentro e fora das redes
sociais, sobre o corpo nu e o direito (ou desejo) de expô-lo.
O papo pelado não se resume à capital gaúcha.
Também nesta semana, a atriz Keira Knightley mostrou os seios em protesto
contra o uso de Photoshop. E a socialite Kim Kardashian escandalizou a internet
com sua abundância de curvas besuntadas e completamente expostas na capa da
revista “Paper”, clicada pelo fotógrafo Jean-Paul Goude. No Rio, a Praia do
Abricó, há décadas adotada pelos naturistas, foi finalmente oficializada a
primeira praia nudista da cidade. O nu, tão comum nos ensaios fotográficos e
desfiles de carnaval, ainda polemiza.
- Não existe cultura, se não houver uma interdição.
Mesmo nas sociedades indígenas, o corpo é sempre construído. Quando você tem a
manifestação de um corpo nu, parece uma subversão de alguma coisa instituída -
explica a psicóloga Joana Novaes, coordenadora do núcleo de doenças da beleza
da PUC-Rio.
Em Porto Alegre, a detenção de uma mulher que
corria nua em um parque público no dia 30 de outubro, e o flagrante de outra,
que uma semana depois caminhava sem roupas sob a chuva em uma movimentada
avenida da cidade, geraram reações diferentes nas redes sociais. Enquanto o
boato de que elas sofriam de problemas psiquiátricos ou de que se tratava de
uma campanha viral corria solto, alguns porto-alegrenses se perguntaram: qual o
problema?
- Vi na internet muito preconceito, muitas
demonstrações pejorativas de pessoas que viam o nu como algo ofensivo - explica
o estudante de Direito que criou no Facebook, a partir de um perfil falso, o
evento “Corrida Pelada no Parcão”, com o argumento de que “ficar nu não é
crime, nem loucura”. - Fiz o evento para implicar com alguns amigos, não
imaginava que teria tanta adesão. Compartilho da filosofia naturista e já tive
experiências de nu coletivo muito bacanas. Mas as pessoas não conseguem
dissociar a nudez do sexo.
'SERIA UMA EXPOSIÇÃO DESNECESSÁRIA', DIZ
PARTICIPANTE DE EVENTO
Uma das corredoras atraídas pelo evento foi Ana
Ribas, dona de casa e maratonista. Ela, que nunca ficou pelada em público,
entrou na brincadeira e foi até o local no horário marcado. Não teve coragem de
tirar a roupa, mas posou para uma foto em que aparece com o colo nu - que agora
ilustra outros eventos de “corrida pelada” na rede social.
- Para mim começou como uma brincadeira, vários
amigos corredores confirmaram presença no evento, mas, quando cheguei lá, só
tinha fotógrafos. Seria uma exposição desnecessária, por isso não tirei a
roupa, mas apoio a causa. O nu é natural, não devemos ter vergonha do nosso
corpo nem considerá-lo obsceno - justifica.
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No último domingo, outra mulher correu pelada por
lá, e o ciclista Aldo Lammel aproveitou a moda para protestar. Com capacete,
bicicleta e mais nada, ele pediu mais respeito a quem opta pela magrela como
meio de transporte, e aproveitou para divulgar seu projeto de volta ao mundo em
duas rodas (o Mochila & Bike). O nu masculino, porém, não ganhou tanta
atenção quanto o feminino.
- Acho que é uma questão de machismo. Estou
recebendo muitas mensagens de apoio, mas realmente não chama tanto a atenção
quanto uma mulher. Acho que é uma questão cultural - sugere Aldo, que diz que
jamais ficaria nu em público se não tivesse uma causa.
MAIS DE TRÊS DEZENAS DE DESINIBIDOS
Para completar, agora outro evento promete levar
centenas de pelados às ruas. É o “Correr pelado/a em Porto Alegre”, que já tem
mais de 17 mil presenças confirmadas. Uma enquete na página pergunta quem está
lá só de brincadeira e quem realmente pretende se despir. Já são 330
desinibidos.
- Criei o evento de forma completamente
descompromissada, como uma brincadeira, e ele bombou de uma maneira absurda -
revela a hoteleira Karen Agra, que mora em Santa Catarina e não pretende
comparecer à corrida que inventou. - Acho que ele expressa uma vontade de
liberdade, fiquei feliz com isso. Acho que a nudez é uma coisa muito tranquila.
É hipócrita se preocupar com mulheres nuas na rua, quando as vemos nas
revistas, na praia…
De polêmico, o nu tem ganhado ares de “cool”. No
último verão, a moda foi tirar a roupa em festas que rolam à beira da piscina,
as chamadas “pool parties”. No Rio ou em Porto Alegre, tirar a roupa já não é
tabu entre os mais descolados. E tem até eventos que ajudam as pessoas a
criarem coragem para se despir. O Além, autodenominado um coletivo de arte
político-poética, promove “vivências” cujo objetivo é experimentar a nudez em
público.
- Criamos um ambiente seguro para que as pessoas
fiquem à vontade e se dispam para que experienciem a nudez, se conheçam mais e
conheçam mais a diversidade ao olharem as outras pessoas nuas, sem que seja
necessário sexualizar essa ação. Então, nesse momento de ficar nu, nós fazemos
um ensaio fotográfico enquanto a criatividade fica livre para criarmos
processos de interação entre as pessoas presentes - explica a fotógrafa Núbia
Abe, uma das criadoras do coletivo.
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Para a psicóloga Joana Novaes, a nudez atual já não
configura algo transgressor como era no movimento hippie, por exemplo. Ela
defende que, em uma sociedade em que é mais espantoso ver meninas com os
cabelos cobertos por um véu do que com peças de roupas minúsculas, a nudez
precisa de um discurso verdadeiramente transgressor para chocar.
- Nas imagens que vi, não tinha ninguém
esteticamente repulsivo, que não se encaixasse nos padrões de beleza. Aí, sim,
eu consideraria subversivo. Não vejo uma transgressão moral nesses corpos nus.
Você já tem uma superexposição desse corpo ou de parte dele diariamente. Se a
ideia é chamar atenção, me parece muito mais marketing do que transgressão. Só
quero ver se tem gente feia nessas corridas. É “cool” ficar nu por que é “cool”
ser jovem. É o corpo em sua exposição máxima, a beleza cada vez mais
superexposta - afirma.
(*) Reportagem publicada na revista vespertina para
tablets O Globo A M
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/casos-de-nudez-em-porto-alegre-reacendem-debate-sobre-tema-14567679#ixzz3JBn08BJt
© 1996 - 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
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