Senador
tucano reafirma que não irá abdicar do papel de oposição e que PT enfrentará
“oposição conectada com a sociedade”
POR MARIA LIMA, LYDIA MEDEIROS E
SILVIA FONSECA
09/11/2014 7:00
RIO - Aécio Neves chega caminhando sozinho pela rua.
Vem do
pediatra e entra na casa do amigo onde daria entrevista, em Ipanema, contando
que os filhos gêmeos, nascidos prematuros, engordaram.
Diz que depois de olhar
tanto no olho da adversária que o derrotou na campanha mais acirrada da
História não abdicará de seu papel de fazer oposição.
Admite erros. Mas diz
que, pela primeira vez, o PT enfrentará uma “oposição conectada com a
sociedade, e isso os assusta”.
Como o senhor viu a entrevista da presidente
Dilma, que chamou de lorota o corte de ministérios e de ideia maluca sua
proposta de choque de gestão?
A candidata Dilma estaria muito envergonhada da presidente Dilma.
Para a candidata, aumentar juros era tirar comida da mesa dos pobres.
Três dias
depois da eleição, o BC aumentou os juros.
Para a candidata, não havia
inflação. A presidente agora admite que há e que é preciso controlá-la.
A
candidata dizia que as contas públicas estavam em ordem, e descobrimos que
tivemos um setembro com o pior resultado da história.
A candidata dizia que
cumpriria o superávit fiscal, e agora se prepara para pedir a revisão da meta
de 1,9%.
Estamos assistindo ao maior estelionato eleitoral da História.
O
choque de gestão, que incomoda tanto o PT, nada mais é do que gastar menos com
o Estado e mais com as políticas fins.
É o contrário do que o PT pratica.
O
próximo mandato, que se inicia, já começa envelhecido.
A presidente não se acha
no dever de sequer sinalizar como será a política econômica.
E é curioso vermos
a presidente correndo desesperada atrás de um banqueiro para a Fazenda.
Eu hoje
chego na minha casa, coloco a cabeça no travesseiro e durmo com a consciência
muito tranquila.
Fiz uma campanha falando a verdade, não fugi dos temas áridos,
sinalizei na direção da política econômica que achava correta. Não sei se a
candidata eleita pode fazer o mesmo.
A oposição também não está envelhecida?
A oposição sai extremamente revigorada da eleição. A campanha teve
duas marcas muito fortes.
A primeira, protagonizada pelo PT e pela candidata
que venceu: a utilização sem limites da máquina pública, do terrorismo
eleitoral, aterrorizando beneficiários do Bolsa Família, do Minha Casa Minha
Vida.
Inúmeras regiões ouviram durante meses, isso sim uma grande lorota, que,
se o 45 ganhasse, seriam desfiliados dos programas. Infelizmente, essa é uma
marca perversa.
Mas há uma outra, extraordinária, que é um combustível para
construir essa nova oposição.
O Brasil acordou, foi às ruas. Minha candidatura
passou a ser um movimento. Nosso e desafio é manter vivo esse sentimento de
mudança, por ética.
Como atuar de forma diferente?
Pela primeira vez, o PT governará com uma oposição conectada com a
sociedade.
O sentimento pós-eleição foi quase como se tivéssemos ganhado.
E os
primeiros movimentos da presidente são de desperdiçar a oportunidade de
renovar, de admitir equívocos, mudar rumos.
Ela começa com o mesmo roteiro:
reúne partidos para discutir um projeto de reforma política ou uma agenda de
crescimento?
Não! Reúnem-se em torno da divisão de ministérios, de nacos de
poder. As pessoas não se sentam para ouvir da presidente:
"Quero o apoio para
um grande projeto de país." Era o que eu faria.
A grande pergunta dos
brasileiros será: para que novo mandato se não há projeto novo de país?
Para
continuar distribuindo cargos e espaço de poder para as pessoas fazerem
negócios?
A presidente corre o risco de começar o mandato com sentimento de fim
de festa.
O PSDB fará um “governo paralelo”?
Vamos constituir dez grupos, de dez áreas específicas, para
acompanhar as ações do governo. Comparar compromissos de campanha com o que
acontece em cada área.
Queremos subsidiar nossos companheiros, lideranças da
sociedade, vereadores, governadores, parlamentares.
Isso não reforça o discurso de que vocês
precisam desmontar o palanque?
Chega a ser risível ouvir o PT falar que é hora de descer do
palanque. O PT, sempre que perdeu, nunca desceu.
E quando venceu também não
desceu. E quem paga a conta são os brasileiros. Cumprimentei a presidente pela
vitória.
Agora vou cumprir o papel que me foi determinado por praticamente
metade da população.
Vamos ser oposição vigilante, fiscalizadora, e não vamos
deixar que varram para debaixo do tapete, como querem fazer, esses gravíssimos
escândalos que estão aí.
Mas não houve acordo na CPI da Petrobras para
blindar políticos, com apoio do PSDB?
Quero dizer de forma peremptória e definitiva: vamos às últimas
consequências nessas investigações, não importa a quem atinjam. Até pelo nível
de insegurança de setores da base do governo, o que pode estar vindo por aí é
algo muito, mas muito grave.
Não depende mais apenas da ação do Congresso ou da
Justiça no país, porque essa organização criminosa que, segundo a PF, se
institucionalizou na Petrobras, tem ramificações fora do Brasil.
E outros
países estão agindo.
Nosso papel é não permitir, do ponto de vista político,
tentativas de limitação das investigações.
Se alguém pensou em algum acordo, e
no caso do deputado Carlos Sampaio ele foi ingenuamente levado a isso, será
corrigido.
A desconstrução marcou a campanha. Como
enfrentar isso em 2018?
O marketing petista deseduca a população porque não permite o
debate. Será que vai dar certo sempre? Queremos transformar o Bolsa Família em
política de Estado para que saia dessa perversa agenda eleitoral. Apresentamos
o projeto, e agora ficou claro porque o PT votou contra.
O PT prefere ter um
programa para manipular as vésperas das eleições, como se fosse uma bondade.
Há
uma manipulação vergonhosa de instituições como Ipea e IBGE. A presidente usou
o marketing de que tinha tirado não sei quantos milhões da miséria já sabendo
que a miséria aumentara. Mais um estelionato.
Setembro foi o pior mês do século
em geração de emprego. Há 20 milhões de jovens sem ensino fundamental e médio.
Nossa educação, comparativamente a nossos vizinhos, é péssima.
E o governo acha
que política social é o Bolsa Família. Não. Tem que ser saúde, educação de
qualidade e geração de emprego para incorporar essas pessoas ao mercado formal.
Como o PSDB se manterá unido com uma disputa
interna que se anuncia para 2018?
Antecipar uma divisão no PSDB hoje é uma bobagem. Não tenho
obsessão em ser candidato a presidente.
O que há hoje é um PSDB, ao lado de
outras forças, conectado a setores da sociedade com os quais não estávamos
vinculados. Esse é o grande fato novo.
Lá na frente, o candidato será aquele
que tiver melhores condições de vencer.
Há uma nova direita indo às ruas e pedindo a
volta dos militares. Como fazer com que o PSDB não se confunda com esse
movimento?
Com nosso DNA. Sou filho da democracia. O que houve foi a
utilização de movimentos da sociedade por uma minoria nostálgica que nada tem a
ver conosco e com nossa história.
A agenda conservadora, antidemocrática,
totalitária, é a do PT. Esse documento do PT, lançado depois das eleições, é
muito grave.
Fala no cerceamento da liberdade da imprensa, de um projeto
hegemônico de país, sem alternância de poder. Fala de uma democracia direta
que, de alguma forma, suplantaria ou diminuiria a participação do Congresso na
definição das políticas públicas.
Teve um momento na campanha do meu avô
Tancredo, em 1984, que pregaram uns cartazes em Brasília com o símbolo do
comunismo.
Era um movimento da direita mais radical para dizer que ele era
comunista. Tancredo disse: "Olha, para a esquerda não adianta me empurrar
que eu não vou."
Ele era um homem de centro. E, agora, eu digo: "Para
a direita não adianta me empurrar que eu não vou".
E os erros na campanha? Faltou conexão com
minorias, movimentos de base?
Faltaram poucos votos que não conseguimos por falta de estrutura.
Nas eleições municipais teremos candidatos com capilaridade em segmentos muito
mais amplos.
Em dezembro, reuniremos a Executiva com esse foco. Faremos ampla
campanha, uma semana de filiação no Brasil. Com gente nas ruas, sindicatos,
universidades.
Estarei em Maceió, numa grande teleconferência, para sinalizar
que o Nordeste sempre será prioridade para o PSDB.
As pessoas estão procurando
saber como participar, como se filiar. Isso nunca acontecera.
Voltamos a ser
depositários da confiança de parcela importante da sociedade que nunca fez
política e está querendo fazer.
Quais foram os erros em Minas? É consenso que
o senhor perdeu porque foi derrotado lá.
Ainda estou tentando entender. Meus adversários tiveram ação
organizada muito forte nas regiões mais pobres de Minas. Temos imagens de
deputados com megafones dizendo: "Aécio vai acabar com o Bolsa
Família".
Os Correios não levavam nosso material, e não estávamos atentos.
Houve talvez certa negligência do nosso pessoal. E nossa candidatura estadual
também não foi bem.
No segundo turno, a força do governador eleito acabou sendo
um contraponto forte. Ninguém é invencível. Eu não sou infalível. É do jogo
político. Souberam ser mais competentes do que nós. A responsabilidade é minha
mesmo.
Vamos recuperar esse espaço. Lançar candidato a prefeito em Belo
Horizonte, onde ganhamos por 60% a 30%, e em todas a grandes cidades.
E a derrota no Rio?
Eu ter tido 45% dos votos no Rio foi um ato de heroísmo. Os dois
candidatos do segundo turno estavam com Dilma. E ainda espalharam jornais
apócrifos me colocando como inimigo do Rio.
A aliança de oposição será mantida?
É bom que a oposição tenha várias caras. É um erro estratégico,
além de gesto de absoluta arrogância, achar que sou o líder das oposições. Não
sou. Somos um conjunto de pessoas credenciadas para falar em nome de uma parcela
importante da população. Sou cioso da autonomia do Congresso.
Mas gostaria de
ver alguma forma essa aliança reeditada na eleição para a presidência da
Câmara. Quem sabe num gesto em direção do PSB. A mim agradaria, mas é uma
decisão que será tomada com absoluta autonomia pelos deputados.
O senhor sempre repete a frase de Tancredo
que ser presidente, mais do que projeto, é destino. Ainda concorda?
Não
é obsessão, como jamais foi. Sou hoje um homem de bem com a vida, conheci um
Brasil novo, vibrante, com esperança. Não é frase de efeito. Vi coisas de
emocionar. Gente que via esperança em mim. E isso é muito sério.
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