►COM A AJUDA DOS VETERANOS PARA DECOLAR

IMPULSO Estudantes da Keep Flying, equipe de aeromodelismo da Poli-USP, apoiada com dinheiro de ex-alunos  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

O grupo Amigos da Poli tenta implantar no Brasil a tradição de ex-alunos ajudarem a financiar suas antigas faculdades


MARCELO MOURA
24/10/2013 06h30 - Atualizado em 24/10/2013 




A universidade muda a vida daqueles que por ela passam. Alguns ganhos são tão valiosos quanto intangíveis, como fazer amigos para sempre ou formar uma visão de mundo. Outros ganhos são objetivos: segundo o IBGE, um trabalhador com diploma de nível superior ganha em média 219% mais que seus pares. A contrapartida por essa transformação raramente vai além da gratidão pessoal e da nostalgia, cultivada em festas de aniversário de formatura. Há dois anos, um grupo de ex-alunos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo começou a transformar a gratidão em retribuição. Eles criaram o grupo Amigos da Poli, o primeiro fundo patrimonial brasileiro formado por ex-alunos e dedicado a apoiar projetos de professores, alunos e funcionários de uma escola. Os resultados começam a aparecer. O fundo liberou recentemente a primeira parcela de um incentivo de R$ 200 mil para projetos acadêmicos.
Projeto Generosidade (Foto: ÉPOCA)
Os Amigos da Poli tentam implantar no país a cultura de retribuição à instituição de ensino, em geral ignorada no Brasil, mas questão de honra em alguns países. Há mais de um século, ex-alunos da Europa e dos Estados Unidos doam dinheiro para fundos universitários sem fins lucrativos. Esses fundos investem o dinheiro dos doadores em aplicações diversas. Projetos da escola, sem fins lucrativos, são financiados com os rendimentos das aplicações desses fundos. A Universidade Harvard tem o maior fundo de incentivo universitário dos Estados Unidos, com patrimônio de US$ 32,7 bilhões. A Universidade Yale vem em segundo, com US$ 20 bilhões. O anúncio do balanço financeiro anual desses fundos é acompanhado com a expectativa de uma final do torneio de basquete universitário. A riqueza do fundo é indicador de prestígio da universidade. O patrimônio reflete o sucesso de seus ex-alunos e assegura que os próximos terão ótimas condições de ensino. Além de doar dinheiro, os ex-alunos compõem uma rede de contatos que facilita o sucesso profissional dos egressos das universidades. Não por acaso, Yale e Harvard competem pela supremacia em outras frentes. Presidente dos Estados Unidos desde 2009,Barack Obama saiu de Harvard. Bill Clinton (presidente de 1993 a 2001) e sua mulher, Hillary, se conheceram em Yale. George W. Bush (presidente de 2001 a 2009) estudou nas duas.
VEJA MAIS



Fundada em 1893, a Poli-USP também produziu seu quinhão de líderes. Lá estudaram governadores, como Mário Covas, José Serra e Paulo Maluf. Banqueiros, como Henrique Meirelles. E executivos, como Laércio Cosentino (Totvs), Rubens Ometto (Cosan) e Roberto Setubal (Itaú). “Nomes como esses eram lendas dentro da faculdade, mas poucos participavam do seu dia a dia”, diz o ex-aluno Marcos Matsutani, formado há dois anos. Matsutani e seis colegas, todos com menos de 30 anos, decidiram pedir ajuda aos lendários – e bem-sucedidos – egressos da Poli. Montaram um modelo de negócio e bateram de porta em porta, em busca de dinheiro e credibilidade. “Pedro Moreira Salles, então presidente do Unibanco, que nem é politécnico, nos apresentou a Jayme Garfinkel, da Porto Seguro”, diz. “Garfinkel adorou a ideia. Além de dar dinheiro, escreveu uma carta de recomendações.” Em dois anos, sem publicidade, os sete estudantes conseguiram R$ 5,5 milhões. Agora, com o fundo atuando, contam com a generosidade de pequenos doadores para chegar a R$ 20 milhões.
Parte do sucesso dos Amigos da Poli na captação de recursos se explica pela transparência. “Ao doar diretamente para a escola, não sei onde o dinheiro vai parar. Ela poderia gastar na reforma dos banheiros, algo claramente importante, mas que não interessa”, diz Pedro Wongtchowski, ex-presidente do grupo Ultra e presidente do conselho deliberativo dos Amigos da Poli. “Está definido no estatuto qual aplicação pode e qual não pode. Queremos dar dinheiro para projetos que melhorem a qualidade do ensino.” A gestão financeira e a escolha dos projetos são feitas por comitês e explicadas em relatórios. Além de regras, existe a credibilidade dos nomes. O comitê de investimentos reúne Cássio Casseb (ex-presidente do Banco do Brasil), Everaldo França (fundador da PPS Portfolio) e Luis Stuhlberger (gestor do banco Credit Suisse Hedging Griffo). Todos ex-politécnicos.

linha sucessória Barack Obama (à esq.), quando estudava Direito em Harvard,  e o casal Bill e Hillary Clinton (à dir.) , alunos de Yale. Eles tiveram sucesso ajudados pelos veteranos de suas universidades. Hoje ajudam os novos alunos (Foto: Steve Liss/Time Life Pictures/Getty Images e reprodução)

LINHA SUCESSÓRIA
Barack Obama (à esq.), quando estudava Direito em Harvard, e o casal Bill e Hillary Clinton (à dir.), alunos de Yale. Eles tiveram sucesso ajudados pelos veteranos de suas universidades. Hoje ajudam os novos alunos (Fotos: Steve Liss/Time Life Pictures/Getty Images e reprodução)
O comitê decidiu distribuir R$ 200 mil entre oito projetos, de um total de 31 candidatos. É pouquíssimo dinheiro, se comparado ao orçamento anual da Politécnica, de R$ 100 milhões. Mas pode fazer diferença. “Nossa expectativa é receber um dinheiro fácil de usar”, diz Antonio Mariani, professor responsável pela equipe de aeromodelismo Keep Flying, contemplada com R$ 30 mil. “Não posso pedir à universidade um computador avançado, porque, pela licitação, sempre há um similar mais barato, mesmo que inferior.” Os recursos do fundo ajudarão também a contornar a lentidão na liberação de recursos públicos. “O dinheiro pedido em janeiro começa a ser autorizado em junho”, diz o estudante Victor Rosa. “Agora, começaremos o projeto de 2014 com recursos desde o início.”


Fundos de incentivo a pesquisas podem diminuir a desistência de alunos do ensino superior. Dos cerca de 350 mil estudantes que ingressam por ano nas faculdades de engenharia do país, apenas 70 mil se formam. A maioria desiste. “Você sempre gostou de mexer em tudo e ver como funciona, então resolve fazer engenharia”, diz Arthur Lazzarini, integrante da equipe Keep Flying. “Daí entra na faculdade e, por dois anos, só vê cálculo, cálculo e cálculo. Isso desestimula.” Matsutani sabe o que é isso. Filho de engenheiro, estudou engenharia mecânica e tornou-se... analista financeiro. “O único motor que vi funcionando na Poli foi de um Opala velho, dentro de uma sala”, diz. Como ex-aluno, ele está agora tentando mudar sua escola. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

EM DESTAQUE

MARCO RUBIO DECLAROU QUE BRASIL JÁ NÃO FAZ PARTE DA LISTA DE "PAISES AMIGÁVEIS" AOS 'EUA'

  Publicado em 02 de junho de 2026 Por Claudio Dantas Marco Rubio  declarou que já não fazemos parte da lista de ‘países amigáveis’ aos EUA...

POSTAGENS MAIS ACESSADAS