AUTOCRACIA EM MARCHA – Crônica de Rinaldo Barros
A conversa de hoje é em forma de denúncia, em defesa da nossa jovem Democracia, duramente conquistada; uma espécie de alerta sobre um fenômeno político ainda em gestação aqui no patropi, mas com raízes já fincadas em alguns países da América Latina: o surgimento de uma nova Autocracia. Vejamos.
O venezuelano Hugo Chávez era um tipo rudimentar. O brasileiro Luiz Inácio, embora sintonizado com os “objetivos estratégicos” da revolução bolivariana, não o é. Chávez dizia não entender por que um presidente “que tem 80% de aprovação” não pode disputar um terceiro mandato consecutivo; como se as regras da ordem democrática devessem variar conforme o desempenho dos governantes e seus índices de popularidade.
Se assim o fosse, deveríamos ter apoiado Hitler em sua sede poder, pois sua “popularidade” era incontestavelmente muito alta, quase unanimidade do povo alemão.
Nos anos 70, aqui mesmo no patropi, o general Médici tinha 72 por cento. Voltemos ao ponto.
Lula, que recusou a possibilidade do terceiro mandato; acredita que pode chegar aonde quer por outros meios, mais sofisticados do que era capaz de conceber a mentalidade tosca do sargentão de Caracas.
A meu ver, trata-se de um processo de criação de um novo e duradouro bloco de controle da máquina estatal, capaz de se manter por algumas décadas, se vencer as eleições presidenciais deste ano. (Aliás, este sempre foi o projeto do PT: conquistar o poder e governar para transformar, autocraticamente, o Brasil numa “potência”. O “mensalão” apenas o interrompeu.)
Projeto esse retomado agora com o Decreto 8.243, o qual põe em prática a essência do documento “A Grande Transformação”, aprovado no 4º. Congresso Nacional do PT e, por sua vez, baseado no livro de Karl Polanyi “A Grande Transformação: as origens de nossa época”, Editora Campus, 1980. Leitura imperdível!
O Decreto 8.243 – íntegra aqui – é, possivelmente, o passo mais ousado já tomado pelo PT. Sua real intenção é criar um “lado B” do Legislativo, não só deslegitimando as instituições já existentes como também criando um meio de “acesso facilitado” de movimentos sociais à política.
Na verdade, trata-se de um novo sistema de tutela e cooptação dos movimentos sociais e sindicais.
Trata-se de um processo que vem minando o espírito da Democracia constitucional, com a desmoralização das instituições, combinada com o incessante culto à personalidade do Lula, a um só tempo autoritário e popular.
A presidente-adjunta, tal como o fez Lula, governa através de medidas provisórias, massacra os excluídos e promove o endividamento das famílias, sob os aplausos da maioria da população.
Lula não representa mais os trabalhadores (como antes), pertence ao sistema; tem fortalecido o grande capital e as oligarquias.
Dilma nunca representou os trabalhadores, e é vista como ameaça (?) pela maioria do mercado.
Perceba o caro leitor que, dentro ou fora do PT governo, Lula aninha uma burocracia sindical que se apropria sistematicamente do mando dos gigantescos fundos de pensão das estatais, os quais, por sua vez, têm assento nos conselhos das mais poderosas empresas brasileiras, administrando muitos bilhões de dólares.
O cenário atual é composto por partidos fracos, congresso desmoralizado, sindicalistas que viraram banqueiros, fundos de pensão convergindo com os interesses do governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados. Ressalte-se que, no Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam do controle ou dos conselhos de grandes empresas.
Devagarzinho, o vírus da Autocracia está minando o espírito da Democracia constitucional; a qual pressupõe regras, informação, participação, transparência, representação, deliberação consciente e controle social. Sem que a maioria perceba, estamos regressando a formas políticas dos anos de chumbo, quando os “projetos de impacto” animavam as empreiteiras, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
No PT Governo, temos a Transposição do rio São Francisco; a Transnordestina; o Trem-bala; a Norte-Sul; a Refinaria Abreu e Lima (em parceria com a Venezuela); a Refinaria Premium que está sendo construída lentamente no município de Bacabeira, a 60 km de São Luis (MA); o Minha casa, minha vida; o Pré-sal para todos; afora as obras do PAC 1, 2 e 3; e os novos estádios e centenas de obras urbanas; o tal “legado” da Copa. É o “Brasil potência”, superfaturado e dirigido pela lucratividade das empreiteiras e dos bancos.
Tudo isso decidido sem que o Congresso Nacional, eu ou você, caro leitor, seja consultado sobre qual deva ser o melhor rumo para o Brasil. Definitivamente, caminhamos para a Autocracia do partido único.
Cá no meu canto, fico assuntando: se, em outubro próximo, a maioria dos brasileiros assumirá a defesa das liberdades democráticas (com alternância do poder); ou não; legitimará a Autocracia, com sua candidata fabricada pelo marketing, e suas práticas autoritárias? A dedução é privilégio do leitor.
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