Maioria das capitais só definirá prefeito no 2º turno. Segundo a Justiça Eleitoral, mais de 138 milhões de brasileiros vão às urnas neste domingo para escolher 5.568 prefeitos e 57.434 vereadores. Pleito põe à prova influência de Lula
As eleições municipais de 2012 são as primeiras com a Lei da Ficha Limpa
em vigor, com Dilma Rousseff presidente e, passada a Era Lula, a primeira com o
ex-presidente livre para fazer campanha por seus candidatos, sem restrições
legais. Não que a Lei Eleitoral constrangesse Luiz Inácio Lula da Silva ao
promover seus afilhados quando estava no poder, mas a força do padrinho era a
grande aposta do PT nestas eleições. O plano, no entanto, fez água. Mais de 138
milhões de brasileiros vão às urnas neste domingo com cenários acirrados em boa
parte das capitais e um anseio pela renovação de quadros na maioria delas. Veja detalhes.
Entre as capitais, o PT só está na dianteira em Goiânia e João Pessoa.
Em Porto Alegre, tradicional reduto petista, Porto Velho e Campo Grande os
candidatos do partido sequer têm chances de chegar ao segundo turno. No maior
colégio eleitoral do Brasil, a cidade de São Paulo, o PT corre para tentar
garantir a presença de Fernando Haddad no segundo turno. Nem a queda acentuada
de Celso Russomanno (PRB) nas últimas semanas ajudou Haddad, que patina sem
chegar aos 20% de intenção de voto. Os votos de Russomanno migraram para
o quarto colocado em São Paulo, Gabriel Chalita, do PMDB.
São Paulo e Belo Horizonte foram as duas capitais em que a presidente
Dilma Rousseff desembarcou para participar da campanha, na tentativa de
alavancar os candidatos petistas: Haddad e, na capital mineira, Patrus Ananias.
Pouco afeita a palanques eleitorais a presidente bradou ao microfone e foi para
a televisão defender os correligionários. Pouco adiantou. Em Minas a
interferência de Dilma, que tentava já fazer frente ao tucano Aécio Neves, foi
tão inócua que, segundo as últimas pesquisas, há chance de o prefeito Marcio
Lacerda (PSB) ser reeleito já no primeiro turno.
“Dilma tem um espírito mais republicano do que Lula, mais respeito às
instituições, em detrimento de questões de ordem puramente partidárias”, diz o
cientista político Humberto Dantas. Ainda que Lula tenha se desdobrado em
viagens pelo país para apoiar os candidatos petistas, as eleições de 2012
reforçam a tese de que a transferência de popularidade de uma personalidade
nacional para um candidato local não é automática – nem obrigatória. “Nem
sempre esse processo é tão eficiente como se pode imaginar”, afirma Dantas.
O mais claro exemplo da limitação dos superpoderes – que o ex-presidente
acredita ter – são as eleições em Recife, a cidade onde Eduardo Campos mediu
forças com Lula e o venceu. Governador e presidente nacional do PSB, Campos
decidiu lançar candidato próprio, o até então desconhecido Geraldo Júlio. O PT
foi de Humberto Costa. Às vésperas do dia da votação, o candidato de Campos tem
mais de 40% das intenções de voto – vinte pontos porcentuais à frente do
segundo colocado, Humberto Costa. Contra o petista pesa uma rejeição de mais de
40% do eleitorado. Não tem Lula que dê jeito.
Renovação e disputa acirrada - Neste
domingo, os brasileiros vão às urnas para eleger 5.568 prefeitos e 57.434
vereadores. Na maioria das capitais, no entanto, a votação de hoje será só a
primeira etapa para a escolha do prefeito. Levantamento do site de VEJA com
base nas recentes pesquisas de intenção de voto aponta que em vinte capitais o
prefeito só será definido no segundo turno. Veja no quadro ao lado. Em apenas
seis delas, a decisão deve se dar já neste domingo, no primeiro turno: Rio de
Janeiro, Porto Alegre, Maceió, Aracaju, Boa Vista e Palmas, que, por ter menos
de 200.000 habitantes, não tem segundo turno.
O cenário inverte o que aconteceu nas eleições de 2008, quando quinze
capitais decidiram o pleito no primeiro turno e só onze tiveram segundo turno.
O fato é que 2012 terá disputas acirradas nos maiores colégios eleitorais do
país e uma tendência à pulverização em detrimento da polarização do voto do
eleitor. O panorama mostra também uma taxa maior de renovação nas capitais.
Enquanto na eleição passadas treze prefeitos conseguiram se reeleger já no
primeiro turno, a tendência é que apenas dois prefeitos garantam a continuidade
de seus governos neste domingo: José Fortunati (PDT), em Porto Alegre, e
Eduardo Paes (PMDB), no Rio de Janeiro.
Ficha Limpa - As
eleições de 2012 marcam a estreia da Lei da Ficha Limpa, que impede políticos
condenados por tribunais colegiados de se candidatarem. E a inovação já reflete
nas urnas, ainda que de forma embrionária. “A Lei da Ficha Limpa tem um caráter
pedagógico”, afirma Humberto Dantas. O cientista político pondera que a lei não
impediu a candidatura de políticos de passado sujo, como Rosinha Garotinho
(PR), líder das pesquisas com 60% de preferência em Campos de Goytacazes
(RJ).
O procurador regional eleitoral de São Paulo, André de Carvalho Ramos,
afirma ter percebido uma mudança de cultura dos partidos já no registro das
candidaturas. “Houve uma preocupação dos partidos em escolher candidatos que
tivessem uma vida pregressa minimamente adequada aos critérios de moralidade e
respeito à coisa pública”, afirma Ramos. “A Lei da Ficha Limpa pegou.”
Na cidade de São Paulo, o TRE registrou 80.000 candidaturas e analisou
600 casos de possível embargo com base na Ficha Limpa. Ao final, 330
candidaturas foram impugnadas com base na lei. “A Ficha Limpa é um degrau,
dentro da escada que estamos subindo rumo à maturidade da democracia
brasileira.”
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