Jarbas Vasconcelos, senador: ‘O PMDB virou satélite do PT


 
GABRIEL CASTRO 
3/05/2013
 às 14:48 \ Vídeos: Entrevista ENTREVISTA PUBLICADA NO SITE DE VEJA
Há quatro anos, o senador pernambucano Jarbas Vasconcelos provocou alvoroço ao afirmar em entrevista a VEJA que seu partido, o PMDB, era corrupto. Alinhado à oposição, Jarbas jamais aceitou o fisiologismo e o apetite voraz do PMDB por cargos nos governos Lula e Dilma Rousseff. 
Hoje, ainda sem saber se tentará um novo mandato no Congresso, Jarbas vai além: “O problema hoje não é nem só o fisiologismo do PMDB. 
A coisa é que ele está se transformando num satélite do PT. 
O PT determina o que o PMDB tem que fazer e o PMDB se subordina a isso”, diz.
Nas últimas três eleições à Presidência da República, Jarbas apoiou candidatos do PSDB, mas no próximo ano aposta na concretização da candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). “O PSDB se embaralhou, não conseguiu se resolver”, afirma.
A aliança com Eduardo Campos em 2014 é para valer? É uma aliança definitiva, consolidada. Eu tinha que escolher, estava com dois adversários em Pernambuco, o PT e o PSB. Não tinha sentido. Havia uma reclamação de alguns membros do PMDB que se consideravam isolados e numa posição de desconforto. Nós então resolvemos abrir uma conversa com o Eduardo e essa conversa foi feita sem ‘toma lá dá cá’ e sem compromisso para cargos e ocupação de espaço político nas chapas de oposição. O PT estava muito mal na eleição para a prefeitura do Recife e nós começamos a conversar nesta ocasião. Terminamos fazendo já ali, em 2012, uma aliança para a prefeitura e ganhamos no primeiro turno. A aliança foi importante porque, além da participação política, a gente tinha tempo de TV. E surgiu um entendimento que tem sido mantido e vai prevalecer, eu acho, para a eleição de 2014.
Por que não uma parceria com o PSDB, como nos outros anos? O PSDB se embaralhou, não conseguiu se resolver até pouco tempo atrás. O partido não estava pacificado, com aquele problema de São Paulo e havia uma ausência maior de entendimento entre Serra e Aécio. No meu caso, sou dissidente do PMDB e votei duas vezes em Serra e uma em Alckmin. E eu disse isso: se o PSDB não conseguiu se pacificar, ficava difícil agregar pessoas de outro partido. Foi essa uma das causas que nos levaram a uma opção pela candidatura de Eduardo: a demora do PSDB. Mas eu acho o Aécio um bom quadro, voluntarioso, que pode agregar e crescer.
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O senhor vai buscar a reeleição ao Senado em 2014? Isso não está definido ainda na minha cabeça. Se eu disputar, disputo a reeleição. Já fui prefeito de Recife duas vezes, governador do estado duas vezes, e não pretendo voltar de forma alguma para cargo do Executivo. A política está muito ruim no país, é uma coisa generalizada. E, como ainda tenho um ano e meio de mandato, só vou pensar nisso no começo de 2014.
Só haverá uma vaga em disputa em 2014. O senhor não corre o risco de ficar sem espaço? Tenho a impressão de que não é por aí. Acho que, se eu manifestar essa vontade, a gente [com o PSB] faz uma composição.
E para o governo? O prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio, quer ser candidato pelo PMDB. O prefeito aspira, o que eu considero legítimo. Petrolina é uma cidade grande, importante, mas ele quer uma aliança com o PT. A chance de eu subir num palanque com o PT é zero. É muito difícil eu progredir num entendimento dessa natureza.
Essa terceira via aberta por Eduardo Campos, com o eventual apoio do novo MD e dissidentes como o senhor, vai ter força depois de 2014? Acho que tem que crescer mais. O PSB, mais dissidentes e o MD não são suficientes. É preciso ver se conseguimos o PDT, por exemplo, ou o PTB. Isso aí depende muito do ânimo do candidato, ele precisa de tempo de TV e esses dois partidos têm. Acho que isso ele está fazendo nos bastidores.
Num eventual segundo turno entre Dilma e Aécio, o senhor e Eduardo Campos iriam um para cada lado? Tranquilamente. Se for Aécio ou Marina no segundo turno, com o Eduardo perdendo, eu voto em qualquer um dos dois com entusiasmo.
O senhor acredita que esse novo polo de poder no campo da esquerda pode significar uma superação do modelo do PT? Acho que as chances com Eduardo Campos crescem exatamente por isso. É quase impossível o presidente Lula criar a imagem de que a candidatura de Eduardo é de direita. Eduardo pertence à base, votou com Lula duas vezes, votou com Dilma, é dissidente. O governo é forte, não é à toa que tem essas pesquisas de opinião mostrando isso. O estado brasileiro está muito instrumentalizado. A força deles advém disso, dessa ocupação indevida de um espaço enorme. Mas acho que o Eduardo tem amplas condições de crescer. É uma pessoa ousada, governa um estado importante do Brasil e está com muita vontade de ser candidato.
Faltam bandeiras ideológicas aos políticos? O caso de Guilherme Afif Domingos, que foi do DEM a um ministério no governo petista em dois anos, mostra isso? Eu acho que esse negócio do Afif é um exemplo, uma coisa patente do quadro de degradação política que a gente vive. Lula formou uma grande aliança fisiológica que resultou no mensalão e em outros problemas. É uma política do ‘toma lá dá cá’, que se presta a partidos pequenos que são verdadeiras legendas de aluguel. Se fosse um período de normalidade e o PT não estivesse enraizado há dez anos no poder, fazendo o que quer, ninguém teria coragem de fazer o que Lula e Dilma fazem: botar o vice-governador do São Paulo, o maior estado da federação, para ocupar o 39º ministério do governo. Ninguém tem condições de criar mais de trinta ministérios. Ou de fazer o que a Dilma faz: usar a televisão, o dinheiro público para ser candidata à reeleição. A gente vê isso, o Tribunal Superior Eleitoral vê isso. E não se toma providência. Ela já foi beneficiada quando foi candidata a presidente. Lula lançou a candidatura e levava a Dilma para todo o canto, fora do período eleitoral.
O governo usa a máquina, os aliados aceitam o jogo e o eleitor os premia com o voto. Como quebrar essa cadeia? Isso se resolve lutando. O fato de o PT estar há dez anos com a preferência popular lá em cima, a gente tem que entender: ele faz o que ninguém iria fazer. Eles instrumentalizaram o estado brasileiro; o estado é todo petista. O Brasil hoje é um país profundamente medíocre, uma mediocridade generalizada, não é feito um debate sério, não se discutem as coisas mais sérias do país. Ao PT e à presidente Dilma não interessa nada disso, só interessa a picuinha eleitoral. Uma mulher que diz que no governo precisa se comportar com seriedade – o que ela não faz – mas na eleição se faz o diabo… Você não faz o diabo em lugar nenhum do mundo, nem dentro nem fora do governo. Eu fui prefeito e governador, e nunca me passou pela cabeça fazer o diabo. Eles têm índices altos de popularidade, mas existe essa ocupação enorme de espaços, a publicidade, o uso indevido de instrumentos pelo governo. A gente tem que lutar contra isso. Se for cruzar os braços, se omitir ou se embaraçar, a gente não vai para lugar nenhum.
O senhor reconhece que o PMDB faz parte desse sistema fisiológico que favorece o PT. É por ingenuidade ou mero interesse? Primeiro, o partido está nessa há muito tempo. Não é de hoje. O PMDB fez isso um pouco com Fernando Henrique e mais ainda com Lula. O problema hoje não é nem só o fisiologismo do PMDB. A coisa é que ele está se transformando num satélite do PT. O PT determina o que o PMDB tem que fazer e o PMDB se subordina a isso. É uma coisa muito complicada, porque se esperava uma postura mais impetuosa e independente do partido, mas o PMDB hoje é manobrado. Está se dizendo abertamente dentro do Congresso que quem vai ser o homem forte das alianças do PMDB e do PT é o Aloizio Mercadante!
Em entrevista ao site de VEJA, o presidente do PMDB, Valdir Raupp, disse que o PMDB hoje é de esquerda porque o PT é de esquerda. É um sinal daquilo que o senhor disse sobre a falta de independência? É uma frase profundamente infeliz. Não tem nada disso. O partido é de centro, sempre foi, com uma direita muito forte dentro dele.
Falta um partido de direita no Brasil? Eu acho que faz muita falta. A gente sente falta de um partido assumidamente de direita. Quando a gente teve isso no Brasil, as coisas ficavam mais claras. Era importante que houvesse um partido que assumisse as posições conservadoras, como a Margareth Thatcher na Inglaterra, ou como o antigo PFL fez durante um período. Esse debate é interessante. Não precisa ser de esquerda. Teríamos conservadores e progressistas: pessoas que querem avançar e pessoas que não querem, ou que querem mas às vezes impondo condições, restrições, adequações. Eu acho que essa mediocridade que a gente vive no país é muito por conta disso, por conta do PT, que domina o país há mais de uma década. Não é brincadeira um país ser dominado mais de dez anos com esse expediente.
O debate político acabou? Não tem. Qual é o debate que existe hoje na Câmara, ou mesmo no Senado, onde só existem 81 senadores e é mais fácil de discutir? Não tem. As pessoas estão mais interessadas em fazer negócios, no ‘toma lá dá cá’, nos cargos. Não estou dizendo todos, mas a maioria.
O senhor é do PMDB histórico. Acha que Tancredo e Ulysses compartilhariam dessa visão? Sim, porque eram figuras respeitáveis, que conviviam com figuras à esquerda e à direita, com pessoas que contestavam, que incentivavam, que adulavam. Eram estadistas. Doutor Ulysses, Tancredo, Franco Montoro eram pessoas que tinham visão, sentimento de estado, espírito público. Hoje a Dilma, por exemplo, nem tem espírito público e muito menos formação de estadista ou visão de país.
O PT tem índole autoritária ou essa prática patrimonialista surgiu com a eleição de Lula? O PT sempre foi dono da verdade, antes de chegar ao poder. Lula foi eleito em cima de duas teclas: uma era a da ética e a outra eram as mudanças. Eleito presidente, ele não fez mudanças e a ética foi embora. O partido não inventou a corrupção. Seria um erro grave dizer que o país passou a ser corrupto quando Lula e Dilma chegaram ao poder. Mas Lula foi conivente. O PT era tido como um partido sério, que só ele era bom, só ele tinha coração, só ele era ético e os outros eram enganadores. De repente chegou ao poder e ficou igual. Qual é a diferença, hoje, do PT para o PMDB e esses outros partidos? Zero. O Brasil teve avanços na área social, não tem como deixar de se reconhecer isso. Mas o quê mais? A nossa política externa é simplesmente ridícula. Ainda hoje, o país está convivendo com uma figura como esse Nicolás Maduro, que nem legitimidade tem dentro do país dele e veio buscá-la aqui.
Por que Eduardo Campos pode resolver esses problemas, se ele é da base aliada? Porque ele está com uma proposta de avançar. Ele tem uma coisa que outros candidatos na nossa área têm dificuldade de fazer: reconhecer que o governo avançou. Ele é peremptório, diz: ‘O país avançou, eu participei disso, mas poderia ter avançado muito mais’. E aí está certo. Eu acho que você não vai resolver as questões desse país com a Bolsa Família. É importante como política compensatória, mas mais importante é a educação, é investir na qualificação do trabalhador. O que o governo tem feito nessa área? A educação está um desastre. Eu acho que, quando Eduardo Campos diz que o país avançou e pode avançar muito mais, acho que ele está falando também da política externa do Brasil – deixar essa coisa de estar agarrado com ditadores ou presidentes de formação atrasada, como a Argentina, Venezuela, Equador. Isso não leva o país a lugar nenhum. Vê as coisas internas: a saúde está desmantelada, a educação é completamente atrasada. Quem é que está discutindo o Brasil de hoje e o de amanhã? Ninguém. Como esse Brasil pode dar um salto qualitativo sem ser um voo de galinha? Um país convivendo com inflação, todos os fundamentos da economia desajustados… Na Presidência, uma mulher que acha que é economista, não sabe o que é economia, mas quer impor as coisas pelo grito, pela intimidação. Para onde é que a gente vai nesse campo? É muito difícil.
O senhor tem esperança de que políticos mais jovens corrijam esse modelo? Eu acho que é uma tentativa que a gente está fazendo. Tem que fazer. É importante se agarrar com unhas e dentes a uma opção como a de Eduardo Campos, Marina Silva ou Aécio Neves. Eu escolhi Eduardo, não porque seja melhor que os outros, mas ele vem da base, e era importante que a gente arrancasse uma pessoa da base para ser candidato. Ele tem uma visão de futuro, de que é preciso modernizar a administração, de que o Brasil não pode avançar com um povo maltratado na saúde e atrasado na educação. O país não tem infraestrutura, como é que vai dar um salto qualitativo sem portos, aeroportos, estradas e ferrovias?. Como é que a gente vai avançar? Se o país estivesse crescendo no ritmo como os outros Brics, a gente tinha quebrado, tinha tido apagões. Mas, como o Brasil está tendo um crescimento ridículo, essas coisas não aparecem.
22/04/2013
 às 18:41 \ Vídeos: Entrevista

Márcio José de Moraes, o juiz que condenou a ditadura pela morte de Vladimir Herzog

BRANCA NUNES
Naquele 27 de outubro de 1978, até os mais incrédulos tiveram de admitir que ainda existiam juízes no Brasil. Em plena vigência do Ato Institucional n° 5, Márcio José de Moraes condenou a União pela prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog. Formado na turma de 1968 da faculdade do Largo São Francisco, depois de cinco anos de muito estudo e nenhuma militância política, esse paulista de Jacareí era apenas um magistrado disposto a cumprir seu dever quando o destino colocou em suas mãos um processo cujo desfecho mudaria o curso da história. Hoje desembargador do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, Moraes ressalva que o país não está imune a um tipo de autoritarismo com que sonham líderes populistas fantasiados de defensores do povo. Aos 68 anos, o juiz que fez a lei impor-se ao AI-5 mantém em seu gabinete no 22º andar do prédio localizado na Avenida Paulista a Olivetti Lettera 22 com a qual redigiu a maior parte da sentença histórica. Além dos inevitáveis calhamaços sobre assuntos jurídicos e alguns livros que identificam um apaixonado torcedor do São Paulo, completam a decoração um cartaz com os versos de Ouvir Estrelas, poema de Olavo Bilac, imagens de São Francisco de Assis e de São José e, sintomaticamente, uma estatueta de Dom Quixote. Na entrevista a VEJA, uma das raríssimas concedidas nestes 35 anos, Moraes afirma que o caso Herzog não se encerrou com a expedição, em março passado, do novo atestado de óbito, que atribui a morte do prisioneiro a lesões e maus-tratos sofridos durante interrogatórios nas dependências do extinto DOI-Codi. Para ele, o drama só terá chegado ao fim com a identificação dos culpados.
O que mudou no caso Herzog com o novo atestado de óbito?
O atestado é uma decorrência natural da sentença proferida em 1978, que já invalidava a versão oficial do enforcamento e do suicídio. Decidi anular o exame necroscópico porque havia sido feito por um só perito, quando a lei exigia no mínimo dois. Harry Shibata, que subscreveu o documento junto com o também médico legista Arildo de Toledo Viana, assinou o laudo sem sequer ter visto o corpo de Vladimir Herzog. Como ele próprio admitiu em juízo, essa era na época a praxe no Instituto Médico Legal de São Paulo. O novo atestado encerrou uma etapa desse episódio. Mas acredito que o caso só estará terminado depois da abertura de um inquérito policial para descobrir os autores do crime, como determinei na sentença ao pedir o cumprimento do artigo 40 do Código de Processo Penal. A não execução dessa ordem judicial configura omissão do Estado.
Com o arquivamento do processo, quem pode tomar essa providência?
Basta que o Ministério Público Federal peça o cumprimento dessa ordem transitada em julgado. Ou mesmo a família. Não só os diretamente envolvidos no caso Herzog, mas todos os que tiveram alguma ligação com a ditadura militar precisam ter seu papel revelado.
Ivo Herzog, filho do jornalista assassinado, acha que o presidente da CBF, José Maria Marin, deve ser afastado da vida pública pelos ataques feitos ao pai pouco antes da prisão e morte. O senhor concorda?
O essencial é que seja apurada a responsabilidade histórica dessas pessoas, e não só de militares ou congressistas. Muitos empresários que hoje posam de arautos da democracia eram aliados do regime. A participação deles, o apoio financeiro, o apoio à tortura, tudo isso deveria ser revelado.
O senhor acha que a Comissão da Verdade deve investigar todos os crimes, inclusive os praticados por movimentos de esquerda que se engajaram na luta armada?
Como a comissão não poderá investigar minuciosamente todos os crimes ocorridos durante a ditadura militar, deve concentrar-se nos praticados pelo Estado. Os assassinatos, roubos e assaltos à mão armada cometidos por grupos de esquerda foram crimes comuns. A gravidade dos cometidos pelo Estado é maior porque foram crimes institucionais, oficiais. Lamentavelmente, a Lei da Anistia abrangeu o crime de tortura que, para mim, é um crime de lesa-humanidade, não suscetível à prescrição. Seria como anistiar o genocídio.
A Olivetti Lettera 22, com a qual redigiu a maior parte da sentença (Foto: Anna Carolina Negri)
Antes do caso Herzog, o senhor fazia restrções ao regime militar?
Quando ocorreu a revolução de 1964, eu não tinha uma opinião política formada sobre a situação política – em alguns aspectos, até simpatizava com os militares. Não considerava João Goulart um bom presidente. Isso começou a mudar quando percebi que aquela história de restabelecer a democracia era falsa. Na faculdade, havia um clima de efervescência política, mas eu procurava não me envolver. Como estava em São Paulo para estudar, via aquela agitação com certo preconceito. Nós qualificávamos de arruaceiros os que militavam no movimento estudantil, e eles nos chamavam de alienados. Ou alienas, como muitos deles preferiam. No fundo, talvez eu tivesse medo de ver aflorar meu lado político.
Só aflorou com o caso Herzog?
Embora se falasse muito em tortura e morte de presos políticos, não queria acreditar que aquilo tudo pudesse ser real. Mudei de ideia ao saber da morte de Vladimir Herzog. Não dava para engolir a história de que ele havia se apresentado espontaneamente ao DOI-Codi e que, no mesmo dia, decidiu suicidar-se. Essa tragédia está realmente acontecendo e não fiz nada, disse a mim mesmo. Uma semana depois, participei do ato ecumênico na Praça da Sé, que ficava perto do meu escritório de advocacia. Queria de alguma maneira me redimir dos anos de omissão, mas ainda estava preso a certas amarras. Assisti a tudo de uma pastelaria que ficava próxima à catedral. Caso a polícia invadisse a praça, poderia dizer que estava lá só para comer pastel. Havia uma mistura de tensão e emoção no ar, não só pela possibilidade de intervenção dos militares, mas por ser a primeira manifestação abertamente hostil ao regime depois de tantos anos de silêncio.
O senhor se surpreendeu quando soube que iria julgar o processo que Clarice Herzog moveu contra a União?
O processo deveria ser julgado pelo juiz João Gomes Martins, titular da 7ª Vara. Como substituto, acompanhei a elaboração da sentença e participei como ouvinte dos depoimentos das testemunhas, mas não podia imaginar que o processo acabaria nas minhas mãos. Repentinamente, um mandado de segurança impetrado pela União proibiu a leitura da sentença do Dr. João. Os militares acreditavam que, por estar às vésperas da aposentadoria compulsória, ele não teria nada a perder e poderia decidir contra os interesses do regime. Eu tinha 33 anos e uma carreira inteira pela frente. Num primeiro momento foi um choque. Mas também senti que estava preparado. Como advogado de banco, havia estudado profundamente o tema da responsabilidade civil. Sabia qual era o caminho a seguir.
Em qual momento o senhor resolveu condenar a União?
As provas eram irrefutáveis. Os jornalistas Rodolfo Konder e George Duque Estrada, que estavam presos no DOI-Codi no dia da morte de Vladimir Herzog, ouviram os sons que vinham da sessão de tortura. Eles viram o amigo. Mais: o corpo foi encontrado em suspensão incompleta. Se as pernas tocam o chão, o suicídio é impossível. Ao contrário do que alegavam os militares, o cinto com o qual Herzog teria se enforcado não fazia parte do macacão usado pelos presos. Isso para citar apenas algumas provas. Só mais tarde entendi que minha convicção íntima havia nascido na Praça da Sé, três anos antes, no dia do ato ecumênico.
O Judiciário era muito pressionado pelos militares?
A Justiça Federal de primeira instância foi criada em 1965 para ser uma espécie de Justiça da ditadura militar. Com exceção dos poucos concursados, entre as quais me incluo, os juízes eram nomeados por ato do presidente da República, depois de indicados pelo ministro da Justiça. Por isso, os militares raramente precisavam recorrer a pressões ostensivas. Mas o clima opressivo era evidente para quem divergia do regime ou ousava contrariar o governo.
A revogação do AI-5 estava marcada para 1º de janeiro de 1979. Por que o senhor não esperou essa data para anunciar a decisão?
Sabia que o valor da sentença se amparava em dois pilares. Primeiro, deveria ser tecnicamente inatacável, científica, profunda, não panfletária e sem adjetivos ou declarações políticas. Segundo, teria de ser publicada ainda na vigência do AI-5 para não ser reduzida a um mero ato judicial.
Qual era o seu estado de ânimo enquanto escrevia a sentença?
Sentia muito medo. Num primeiro momento, fiquei tão atormentado imaginando o que teria acontecido com Vladimir Herzog que não conseguia dormir. Só tive um pouco de paz quando separei a imaginação da realidade presente e me concentrei no dever judicial. Escrevi a sentença durante as férias. Mandei minha família para a casa dos meus pais em Jacareí e trabalhei durante 20 dias, dia e noite, inclusive nos fins de semana. Não conversei com ninguém, foi um trabalho solitário.
Por que o senhor evitou comentar esse episódio durante tanto tempo?
Como já disse, sentia muito medo. Achava que, quanto mais aparecesse na imprensa, maior seria o risco de sofrer ameaças ou retaliações. E também porque não queria personalizar a sentença. Não era uma decisão pessoal, mas do Poder Judiciário como órgão do Estado. O juiz na ribalta passa a ser afetado por defeitos comuns em seres humanos ─ egoísmo, narcisismo, essas coisas. Naquela época, soube que o presidente Ernesto Geisel e o ministro da Justiça, Armando Falcão, conversaram sobre a hipótese de me aplicarem alguma forma de punição. O próprio Geisel encerrou o assunto ao avisar que não pretendia cassar mais ninguém do Judiciário.
Passados 25 anos, o Legislativo e o Executivo demonstram pouca simpatia pelo Poder Judiciário, que também vem colecionando conflitos internos. O que houve?
Embora seja mais aberto, participativo e mais próximo da cidadania, o Judiciário vive uma época de baixa autoestima. Os dirigentes da magistratura, corregedores e presidentes de tribunais superiores estão impregnados de irresponsabilidade e sofrem de incontinência verbal. Não medem os efeitos exercidos por suas declarações sobre os juízes de primeira instância, ainda em formação, que compõem a base que sustenta a luta da magistratura. Não se pode apresentar o Judiciário como um poder infestado de bandidos, porque essa generalização é falsa. Além disso, existe hoje uma supervalorização dos números e estatísticas. Isso resulta em cobranças baseadas exclusivamente na quantidade de ações que são julgadas, em detrimento da qualidade dos julgamentos.
O Brasil se livrou de vez do fantasma da ditadura?
Creio que não. Daí a importância da memória, da verdade, das discussões a respeito daquele período. Podem até parecer muito remotas para as novas gerações, mas são essenciais para impedir que situações históricas semelhantes ressurjam com outras vestimentas, outras nuances que camuflam a mesma violência. Acho difícil a volta da ditadura explícita, fardada. Mas existe o risco da ditadura travestida, da ditadura populista que já desponta em diversos países da América do Sul. A ditadura de um partido só, a ditadura do simpático, dos fundamentalistas, dos que se vestem de povo e fazem tudo para amordaçar a oposição supostamente para o bem desse povo. Eles tentam até desqualificar um julgamento do Supremo Tribunal Federal, que respeitou todos os direitos constitucionais de ampla defesa, porque se dizem defensores dos oprimidos.
O senhor parece referir-se aos desdobramentos do processo do mensalão. Existem semelhanças entre o caso Herzog e o julgamento em fase de conclusão no STF?
Ambos contribuíram para a afirmação da democracia e do Poder Judiciário. A sentença do caso Herzog fez com que a população voltasse a acreditar na Justiça e foi um passo adiante no caminho da redemocratização. Aquela decisão reconheceu, em nome do Estado, que ocorriam sequestro, tortura e morte de presos políticos. O mensalão mostrou que todo brasileiro tem que pagar pelo crime que cometeu, independentemente do cargo que ocupa e da influência que tem no governo.

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