Fortemente pressionada, Dilma tende a dar vazão a seu traço mais autoritário. O que a médio e longo prazo corrobora para isolá-la, tornando muito difícil o exercício de governar um país multipartidário e dotado de um tão emaranhado quando difuso jogo de interesses políticos.
Foi assim que ela se colocou em xeque ao incitar a convocação de um plebiscito para uma reforma política. A medida, que foge de sua competência, desagrada profundamente os parlamentares, a turma que detém as prerrogativas de conduzi-la. De forma intempestiva, sem consulta prévia, Dilma soltou a notícia em cadeia nacional de televisão e rádio como uma tentativa de amansar a onda de manifestações urbanas.
Pegou o Brasil de surpresa com a história. E conseguiu desagradar a todos, de todos os poderes. Causou um racha na base aliada – inclusive contradizendo o vice-presidente Michel Temer que, anos atrás, se posicionara publicamente contra o assunto, disseminou a fúria pela oposição e foi vexadoramente desautorizada pela Justiça, que sentenciou não haver tempo hábil exigido pela Constituição para a consulta popular antes das eleições nacionais, a meta de Dilma.
E como desgraça pouca é bobagem, a presidente retomou a carga quase que instantaneamente, agora posicionando a artilharia na direção das lacunas da saúde pública brasileira, carga que ricochetou em um grupo poderoso e organizado no Brasil: os médicos.
A classe não gostou, para dizer o mínimo, do plano de importação de profissionais do exterior. E demonstrou fúria com a ideia de um estágio obrigatório de dois anos no SUS, a rede pública de saúde nacional, para os recém-graduados. Trata-se, na opinião de Dilma, de uma forma de ensinar os novos médicos com a prática, ao passo que ajuda a engrossar o SUS de mão-de-obra, uma queixa comum entre os usuários do sistema.
A maioria das associações de médicos veio instantaneamente a público e acusou a presidente de abrir um precedente perigoso: o de iniciar por aqui o serviço civil obrigatório. Seria, segundo essa teoria, o mesmo que abrir uma porta que, no futuro, poderia obrigar representantes de outras áreas a trabalharem para o governo sob pena de não obterem registro profissional em caso de recusa.

O discurso pode parecer alarmante – e, convenhamos, de fato é – mas a verdade é que a presidente mexe em vespeiro, cutuca a onça com vara curta.

Existem 400 mil médicos no Brasil, além dos simpatizantes, familiares e amigos próximos. Como bem lembrou Vinicius Torres Freire, articulista do jornal Folha de S. Paulo, eles representam uma elite em termos políticos, contingente com educação acima da média nacional e com trâmite em esferas decisórias de poder. 

Em outras palavras, são formadores de opinião dos mais competentes. Capazes de virar a cabeça de muita gente no que tange ao rumo político do Brasil daqui até o próximo pleito.

Há de se registrar que a recente revolta que tomou as ruas do Brasil nasceu e solidificou-se na classe média local. Não falo daquela nova classe média que ascendeu nos últimos dez anos e foi bradada em verso e em prosa pela mídia internacional em função das oportunidades geradas principalmente durante a gestão Lula. Mas daquela tradicional fatia formada por famílias que andam de carro há algumas gerações, têm casa própria, são propensos a valores mais conservadores e que por muitos anos deram as cartas na formação dos quadros políticos vitoriosos no país.
É preciso aguardar um pouco para compreender o futuro político de Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores. Embora que, por hora, ele não pareça lá muito promissor.

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