O PMDB e o bonde da
história
Partido que
aperfeiçoou o adesismo debate se desembarca do governo. Mas não
pode se eximir de sua parcela de responsabilidade pela crise Por: Gabriel Castro e Marcela
Mattos, de Brasília12/07/2015
No Palácio do Planalto, o vice-presidente do
Brasil, Michel Temer, fala com a presidente Dilma Rousseff após cerimônia de
lançamento do Pacto Nacional de Violações de Direitos Humanos na Internet -
Nas
últimas três décadas, o PMDB exerceu com incomparável habilidade a arte de se
manter no governo - e sempre arranjar uma justificativa aparentemente
republicana para isso.
A tática do adesismo irrestrito costuma funcionar bem:
rende votos, influência e cargos privilegiados no primeiro e segundo escalão.
Até que se esgote a popularidade do líder do momento e seja necessário pular do
barco.
O
PMDB está nessa situação. Os níveis baixíssimos de popularidade de Dilma
Rousseff e a decadência do PT são sinais muito fortes para serem ignorados por
um partido que almeja assumir o Palácio do Planalto em 2018.
Ao mesmo tempo em
que aumentam as críticas à presidente da República e ao seu partido, nomes de
destaque do PMDB têm se aproximado de figuras da oposição. Mas ainda não há
clareza a respeito do rumo a tomar.
Rompimento imediato? Apoio aberto ao impeachment?
Preservação do governo para lucrar com a imagem de fiador da estabilidade?
Em
meio às incertezas, os peemedebistas se preparam para lançar no próximo congresso
da legenda, previsto para a primeira quinzena de outubro, uma proposta de
programa partidário com traga quinze caminhos para a política e a economia.
O
principal responsável pela elaboração do documento é o senador Romero Jucá
(PMDB-RR).
A depender das suas últimas declarações sobre as políticas
econômicas de Dilma, é esperado que apresente propostas divergentes das
adotadas pelo governo petista.
Na última semana, o parlamentar disse que
"chegou a hora da verdade dos números" e que nos cálculos não devem
haver "maquiagens" ou "pedaladas".
Dentre
os peemedebistas de destaque, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ),
é o que menos esconde a disposição de rompimento com o PT - embora não com o
governo:
"O PMDB, a cada dia que passa, está mais distante do PT e nós
esperamos que fique a cada hora mais distante", disse ele na última
quinta-feira. E prosseguiu:
"Temos a responsabilidade da governabilidade
de um governo que em que o PMDB faz parte na chapa, mas isso não quer dizer que
temos que mergulhar nas teses equivocadas do PT".
Desde que assumiu o
comando da Câmara, Cunha tem pautado temas que desagradam o governo. Até agora,
venceu mais do que perdeu.
O
ex-deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) é um dos personagens que ajudam a
explicar a relação do PMDB com o PT.
Antigo adversário dos petistas, ele se
aproximou do governo ainda na gestão de Lula. No primeiro mandato de Dilma, se
tornou vice-presidente da Caixa Econômica Federal. Depois, rompeu novamente com
o PT.
"Na medida em que a coisa vai se deteriorando, a nossa ideia de
afastamento vai ganhando adeptos e se tornando mais real. Vai culminar em
outubro no congresso do PMDB", avalia.
Já
na convenção de 2014, a sigla mostrou-se dividida. O apoio à reeleição de Dilma
Rousseff foi aprovado com apenas 54% do total de credenciados para votar.
Se a
votação ocorresse hoje, o resultado certamente seria amplamente desfavorável ao
governo.
A
tese do impeachment ainda é minoritária. Para muitos
peemedebistas, interessa manter a presidente Dilma Rousseff acuada e impopular.
Por dois motivos.
O primeiro, porque com uma presidente enfraquecida no poder o
partido continua a controlar a agenda pública, como tem feito por meio de
Eduardo Cunha e Renan Calheiros.
O segundo, porque assim será mais fácil
derrotar o PT em uma eventual candidatura avulsa à Presidência em 2018.
Mas
a estratégia traz riscos. Se chegar na próxima eleição presidencial ao lado de
Dilma, mesmo que apenas simbolicamente na figura de Michel Temer, o PMDB terá
muita dificuldade em se apresentar como o porta-voz da mudança.Como negar que o
PMDB também é parte dos motivos para a crise?
A instabilidade econômica é fruto
de políticas irresponsáveis de Dilma Rousseff no seu primeiro mandato e de Luiz
Inácio Lula da Silva. Tanto um quanto outro contaram com o apoio providencial
do PMDB, que nunca questionou a sério a política econômica petista.
Presidente
da Fundação Ulysses Guimarães e figura próxima a Temer, o ex-ministro Moreira
Franco tenta eximir o partido: "O partido não participou e nem participa
da formulação das estratégias econômicas", diz.
No
caso do petrolão, outra causa direta da impopularidade do governo, não há
dúvida de que a estrutura foi montada por governos petistas, para atender
prioritariamente o PT.
Mas também é inegável que o PMDB desfrutou do esquema.
Eduardo Cunha e Renan Calheiros estão na lista de investigados da operação Lava
Jato. É outro tema em que o partido terá de se esforçar muito para passar a
imagem de que é diferente do PT.
O
PMDB pode, por outro lado, abarcar a tese do impeachment. Nesse
caso, o herdeiro da Presidência seria Michel Temer.
Mas a história mostra que o
partido só faria isso quando o cenário estivesse desenhado contra o governo.
Não é do perfil da sigla tomar a dianteira em um processo sem volta como esse.
Enquanto
avalia qual rumo tomar em 2018, o PMDB já tem clareza que, nas eleições
municipais de 2016, o afastamento do PT é o melhor caminho para obter um bom
resultado nas urnas.
Se colocado em prática, poderá ser o primeiro passo para o
divórcio que o PT tanto teme.
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