Integrantes de movimento dormem em barracas para reivindicar aluguel social e parte das moradias prometidas por Haddad
DENISE DALLA COLLETTA
16/07/2013 20h49 - Atualizado em 18/07/2013 10h17
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Ao menos 890 mil famílias paulistanas vivem em condições precárias de moradia, segundo a Secretaria de Habitação (Sehab). Para amenizar esse déficit, Haddad prometeu 55 mil apartamentos entregues até o fim do mandato. No entanto, os movimentos por moradia, que receberam as promessas com entusiasmo no início do ano (leia entrevista com o Secretário de Habitação),viram poucos avanços práticos até agora. “Sabemos que demora em torno de dois anos para fazer uma desapropriação”, diz Paulo Roberto Nunes Viana, presidente do Movimento “Casa Dez”.
Desde a madrugada de domingo para segunda-feira, Paulo e mais 200 pessoas ocupam o lado direito da sede da Prefeitura em 100 barracas de acampamento. São membros do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Ipiranga “Casa Dez”. Eles têm provisões para ficar até três meses acampados no local. “Estamos nos revezando porque as pessoas têm que trabalhar e não podem ficar aqui o dia todo”, diz.
Na fila para receber o almoço de hoje na barraca de plástico improvisada na calçada, Paulo fala com revolta sobre a reportagem do Estadão que classifica os acampados como classe média. “Ganhamos em média R$ 1.000 por mês, temos que sustentar a família e pagar no mínimo R$ 500 de aluguel”, afirma. “Ontem o pessoal da Secretaria de Governo disse que a bolsa aluguel vai ser descontinuada”. O Casa Dez tem mais de 3 mil membros, e 200 deles recebem o aluguel social.
Na mesma fila esperando a comida, José Carlos de Almeida, de 51 anos, conta que trabalha como cobrador de ônibus durante o dia e volta à noite para dormir no acampamento. O salário de R$ 1.100 é complementado pela renda variável da mulher, que é diarista. Com o aluguel de uma casa no Jardim Castro Alves, próximo ao Grajaú, ele gasta R$ 600. “Estamos reivindicando o aluguel social”, conta.
O grupo entregou uma lista com reivindicações à Secretaria de Relações Governamentais em 12 de julho. São elas: 1.500 bolsas de aluguel social, 500 unidades nos terreno da Petrobrás, 100 unidades no terreno da Sabesp, 30 unidades no terreno da Estada das Lágrimas, desapropriação de três terrenos no Ipiranga e em Interlagos (esse último seria um processo amigável, segundo o “Casa Dez”).
Enquanto fazia a entrevista, fui parada por Maria Alves de Souza, uma mulher de 62 anos. “Moça, como faz para participar? Queria um quarto e cozinha só”. Sem família, ela mora de favor em um quartinho de fundo próximo aos Shopping Aricanduva e vive de bicos no centro. “Se tiver que pagar R$ 500 de aluguel, teria que morar na rua”, afirma Maria. “Temos que lutar pelos nossos direitos, pelo Casa Nossa Vida (em referência ao Programa Minha Casa Minha Vida), até agora foi só promessa”. Ela ficou com vergonha de perguntar sobre o movimento e partiu para terminar seu bico do dia.
Em nota, a Sehab informou que o Casa Dez esteve em reunião em 30 de abril na Secretaria e que um dos terrenos pleiteados pelo grupo (na Rua Francisco Pedroso) já é estudado para desapropriação. E que um outro terreno é uma área de proteção ambiental com suspeita de contaminação do solo por lixo hospitalar. “Estou aberto a me reunir sempre que precisar para explicar que não vou poder destinar 55 mil moradias só para entidades organizadas”, disse Haddad, na manhã da última segunda-feira.
No centro, a Secretaria de Habitação mapeou 42 prédios de interesse social. Onze deles eram ocupados por moradores sem teto e já estão em processo de reintegração de posse, 13 são particulares, 14 estão em fase de serem declarados de interesse público (primeiro passo no processo de ser transformado em moradia social) e apenas quatro serão efetivamente transformados em moradia.
A auxiliar de limpeza Glória Souza de Oliveira, de 62 anos, acampada desde domingo, está na fila para receber moradia. “Ganho R$ 630 por mês, tenho que morar com minha filha, o marido e os três netos para sobreviver”, diz. O aluguel da casa filha no Ipiranga sai por R$ 750. “Não estamos roubando, se não acampar, a gente nunca vai conseguir nada”.
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