Posted: 21 Sep 2013
Se tivesse que classificar a minha relação com a natureza, eu diria que é parecida com aquela que o Ross tem com o mar: um respeito profundo que algumas pessoas mais desatentas classificariam como medo.
Respeito
Não me sinto confortável em gramados, não gosto de estar cercado por árvores, não confio em absolutamente nenhum animal do qual eu não possa me defender sozinho — e isso inclui poucos animais, já que considero até mesmo os esquilos e hamsters como engenhosos e dissimulados — e desde pequeno tenho pânico de cavalos porque aqueles olhos em lados separados da cabeça me dão uma sensação primitiva de terror.
Talvez essa parte dos cavalos realmente envolva mais medo do que respeito, tudo bem, mas acho que vocês entenderam a mensagem geral.
Isso se deve ao fato de que, ao contrário de uma crença geral de que a floresta, as pradarias, a grande planície, seriam o ambiente natural do homem, sendo a natureza provedora e amiga, aquela que nos deixaria seguros e confortáveis, eu sempre vi a natureza mais como um mistério, uma zona instável, um ambiente inseguro e competitivo no qual nós sobrevivemos exatamente porque usamos polegares opositores, conexões cerebrais específicas e outras armas que as outras espécies não tem para conseguir sair de lá o quanto antes.
Ou seja, eu não acredito numa mãe natureza, mas sim, possivelmente, num tio natureza, lunático, que se diverte colocando os sobrinhos pra brincar e gosta de posicionar os olhos deles em locais confusos e bastante perturbadores da sua anatomia.
Mas antes que alguém me entenda mal, eu não estou dizendo que a natureza não é a fonte de tudo, ou que não devemos preservá-la, ou que no processo de evolução industrial o homem não perdeu a mão e começou a abusar do seu ambiente de maneiras irreparáveis e imperdoáveis, atos cujas conseqüências nós e nossos descendentes vamos sofre.
Não. Nada disso.
Eu apenas sempre achei perigosa a sensação de familiaridade e controle do homem, a visão de que nesse estágio da sociedade já domamos a natureza, já controlamos o nosso ambiente, já assumimos o nosso papel como raça dominante do planeta e o mundo se tornou um imenso playground, uma Disneylândia a céu aberto da qual nós somos os responsáveis e guardiões.
É por isso que, de tempos em tempos, fico feliz quando a natureza nos dá algum lembrete do quanto ela ainda é misteriosa, confusa ou apenas fodidamente insana, seja por meio da descoberta de uma borboleta que bebe as lágrimas de uma tartaruga…
Não faça "óuuun". Isso é basicamente um animal que se alimenta da tristeza de outros, como aquele pessoal do seu escritório.
… dos lembretes científicos de que ainda existem diversos animais ainda não-categorizados, mesmo dezenas de anos depois de sua descoberta, ou mesmo das teorias sobre como o ambiente está reagindo às ações do homem com um aumento significativos dos ataques a humanos realizados por animais, incluindo espécies sem absolutamente nenhum histórico de ataques.
Sim, em breve teremos um filme sobre castores atacando uma cidade e ele poderia ser baseado em fatos reais.
Porque sim, para mim isso são lembretes de que a natureza ainda é o desconhecido, de que independente da nossa evolução, ciência e modernidade, não entendemos nem a metade do que acontece em nosso próprio planeta.
Lembretes de que, por mais que nos consideremos os donos da Terra, existem coisas muito acima da nossa compreensão e conhecimento acontecendo o tempo todo, nos mais diversos níveis, desde os animais desconhecidos na Amazônia até as espécies nunca dantes vistas numa lagoa em Vladivostok.
Lembretes de que é sempre bacana ser mais humilde, não apenas em relação ao universo mas também em relação ao seu próprio planeta, porque quase nada hoje em dia impede aquela formiga de apenas desenvolver asas, aprender a manipular um revólver e sequestrar você e a sua família. Lembretes de que cuidar do planeta não é questão de educação ou caráter, mas sim de sobrevivência.
E claro, lembrete de que, parafraseando o Ross, a gente precisa respeitar a natureza.
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Um lembrete da natureza:
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